O Carlos Guimarães Pinto apesar dos seus 36 anos é um homem com uma história de vida imensa. Viveu um mês com a namorada em Dharamshala e deu aulas a refugiados, foi árbitro de futebol, operador de call center, formou-se em Economia, deu aulas na universidade Católica mas também no Vietname. Teve aulas num retiro com Dalai Lama e foi consultor de empresas baseado no Dubai, tendo trabalhado em mais de 20 países. Regressou a Portugal e liderou a Iniciativa Liberal nas últimas legislativas. O partido colocou-se na agenda mediática através das ideias e comunicação irreverente. Depois das eleições abandonou a liderança do partido após sentimento de missão cumprida ao serem construídas bases para o futuro, contudo continua com uma voz muito ativa sobre o panorama nacional.

Desconstruindo Carlos Guimarães Pinto e Portugal

Índia, Filipinas, Nigéria, Emirados Estados Unidos, Vietnam, o que sair de Portugal mostrou-te e ensinou-te?

Viajar, mas acima de tudo viver a realidade de diferentes países traz-nos o benefício de percebermos melhor a natureza humana e a relativizar uma série de coisas. Ao percebermos o que há de igual, e diferente, entre pessoas de diferentes culturas, compreendemos o que pode ser mudado e o que é inerente à natureza humana. Também nos abre horizontes e torna-nos mais criativos e tolerantes.

Como um liberal assiste à falta de liberdade da disciplina de voto, isso não será como ir para uma prova de natação livre e sermos obrigados a nadar bruços?

É preciso não esquecer que são os deputados que se submetem voluntariamente à disciplina de voto. Não há nada nas regras da Assembleia da República que os obrigue. São eles que fazendo os seus cálculos políticos optam por se submeter em troco de serem novamente colocados nas listas ou agradarem ao chefe. As pessoas devem avaliá-los por se submeterem tão facilmente na mesma medida em que avaliam os partidos por submeterem os deputados a disciplina de voto.

A Iniciativa Liberal assumiu-se como um partido de ideias. Não será uma luta injusta os argumentos lógico/racionais debaterem versus a psicologia de massas dos discursos populistas ou demagogos? 

Não é uma luta fácil nem será ganha com facilidade. É muito mais fácil crescer e vencer na política deixando-se levar pelas ideias populistas e demagógicas. A Iniciativa Liberal tem um conjunto de ideias muitas vezes contra-intuitivas e que são complicadas de transmitir. Mas apesar destes defeitos, estas ideias têm duas características que fazem com que valha a pena lutar por elas: são as ideias que Portugal precisa e as ideias que funcionam. Só por isso vale a pena lutar para que as pessoas percebam isso.

Os algoritmos digitais podem não mostrar um contraditório, ou seja existe a facilidade de entrar numa bolha. Há um Portugal da caixa dos comentários nas redes sociais e um Portugal bem mais simpático no offline? 

O offline é, por definição, muito mais simpático porque as pessoas olhos nos olhos têm sempre uma atitude diferente. Já me aconteceu várias vezes dar-me imensamente bem com algumas pessoas e depois de algumas discussões online a relação ficar completamente destruída, discussões que eu tenho a certeza que olhos nos olhos teriam decorrido de uma forma muito mais amigável. Eu hoje evito completamente ter discussões online. Se não conhecer a pessoa, abandono a discussão assim que percebo que se pode tornar pessoal. Se conhecer a pessoa, convido-a para um café para discutir o assunto. Em 15 anos de discussões online já senti demasiadas vezes a tristeza de perder amigos devido a discussões online (alguns tornaram-se mesmo inimigos activos) e quase sempre que encontrei um “inimigo” online na vida real acabamos por esclarecer as nossas divergências. Também noto isso na malta mais jovem, que já cresceu no online, que me parecem terem relações mais conflituosas e discussões mais entricheiradas. Temos que redescobrir o prazer de falar e discutir olhos nos olhos ou pelo menos de telefonar. Espero que o advento das video conferências ajude a que, mesmo online, as interacções se façam assim, de uma forma mais pessoal.

O economista Steen Jakobsen, diz que “Portugal devia ter vergonha de não ser um país de topo mundial”. É verdade?

Portugal teria todas as condições para ser um dos países mais desenvolvidos do Mundo, principalmente agora com o advento do teletrabalho. Se uma pessoa pode trabalhar em qualquer parte do Mundo, certamente muitos escolheriam trabalhar num país seguro, com um tempo fantástico, boa gastronomia e com baixo custo de vida. Infelizmente, tudo o resto contraria estas vantagens: a carga fiscal, a burocracia, a perseguição da máquina fiscal, a lentidão da justiça, etc. É uma oportunidade perdida.

Aveiro, Braga e Porto são os principais motores da economia portuguesa, contudo porque o país continua centrado em Lisboa?

É um processo que se alimenta mutuamente num ciclo vicioso. O poder político concentra-se em Lisboa levando o poder económico atrás. Atrás desses dois segue o poder mediático. Como o poder mediático se concentra em Lisboa, a opinião pública acaba por se focar mais nos problemas de Lisboa o que faz com que o poder político se preocupe mais com esses problemas, concentrando-se ainda mais em Lisboa e atraindo os outros dois poderes. Temos que já não haja muitas possibilidades de inverter este ciclo.

Há empresas fora das IT (salários acima de média), que faturam milhões e apenas pagam o salário mínimo para a maioria dos colaboradores. Mesmo com uma carga fiscal mais baixa isso mudaria? Há exemplos de pessoas que trabalharam uma vida inteira na mesma empresa e receberam o salário mínimo até se reformarem. Não será uma questão de mentalidade invés de económica? 

Isso é o mesmo que dizer que não voarmos é uma questão de mentalidade. Não é mentalidade, é a lei da gravidade. As pessoas em Portugal recebem pouco porque há poucas empresas. Se houvesse mais investimento em Portugal, mais concorrência entre empresas, os salários seriam mais altos. Não só haveria mais concorrência pelos trabalhadores como as empresas menos produtivas, as responsáveis por atirar os salários para baixo, deixariam de existir. A única forma sustentável de aumentar salários é termos mais empresas a competir pelos mesmos trabalhadores, termos mais concorrência para garantir que empresas pouco produtivas desaparecem.

Digo isto muitas vezes a alguns amigos socialistas: se há coisa que os “patrões” detestam é concorrência: se os querem mesmo lixar, abram os mercados e exponham-nos à concorrência.

Como não vivo em Lisboa e arredores, há problemas locais que me são completamente alheios. Pessoalmente acredito que fora da capital e arredores existem oportunidades mais igualitárias independente da raça ou nacionalidade da pessoa. Do pré 25 de Abril ao pós 25 de Abril, e consequente chegada dos PALOP, ainda existe uma certa segregação urbanística e problemas adjacentes daí?

Parece-me claro que não é igual nascer branco ou negro neste país. Da mesma forma que não é indiferente nascer homem ou mulher, rico ou pobre, lisboeta ou beirão. A falta de crescimento económico e concorrência são os principais causadores da falta de mobilidade social e a prevalência de diferenças entre grupos de pessoas. Pensemos num clube de futebol, uma área em que a concorrência é apertada: o que é que acham que aconteceria se o presidente de um clube de futebol contratasse apenas os seus amigos e familiares para jogar? O clube perderia e ele acabaria sem o seu lugar. Isto porque o futebol é, pela natureza do sector, altamente competitivo. E por o ser é que o futebol é uma das poucas formas que pessoas que de outra forma estariam condenadas à pobreza conseguem subir muito na escala social. Mas o futebol só não chega. Precisamos que toda a economia funcione mais assim.

Quais os restaurantes em Espinho que recomendarias ao Gordon Ramsay?

Gosto muito do Cantinho da Ramboia, fora da zona turística, muito bom e barato. O Aquário também é um marco da cidade, mas esse não precisa de publicidade e está um bocadinho fora do meu orçamento.

Se a tua vida fosse um filme, qual seria a sinopse e quem seria o realizador?

“Carlos Guimarães Pinto, o gajo que gostava de experimentar coisas e escolhia os destinos de acordo com o prazer que lhe daria percorrer o caminho para lá chegar.”. Eu gosto muito do Tarantino, mas acho que a minha história de vida não é suficientemente sangrenta para um filme dele. Ficar-me-ia então pelo David Fincher.

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