“Os Americanos encaram o falhanço como algo banal a caminho do sucesso.”​

A Rute define-se como “estrategista que adora construir projetos do zero”.

Diz ser uma Hip Hop Head (aos 16 foi co-fundadora da primeira revista online de Hip Hop de Portugal), contudo também tem Head para o Marketing!

Trabalhou no mundo corporativo para duas multinacionais onde lançou novos produtos e reestruturou todo um departamento de marketing. Aos 22, largou um desses empregos para aventurar no comércio electrónico.

Já fez uma loja pop-up de 3 meses num grande shopping onde vendia caixas de música alemãs. Foi gerente de marketing numa empresa de eventos, fez consultoria, trabalhou no Dubai “sem um título oficial e adorou cada minuto”, criou start-ups e hoje em dia é Fiel Marketing Manager na Rancher Labs, nos EUA.

No Desconstruindo#10 vamos conhecer muito da sua carreira, dos desafios e experiências, mas também da diferença entre mercados. (E a seguir à entrevista oiçam o Podcast onde participa Casa Trabalho Casa, é um dos meus favoritos!!)

Marketing e Marketing Digital serem um só. Rap e Trap serem o mesmo estilo. E ambas, atualmente fazem parte da sociedade de uma forma mais abrangente. Há mais parecenças que diferenças entre o Hip Hop e o Marketing? 

Sou Hip-hop head e um bocado purista por isso não sei se concordo que Rap e Trap são exactamente o mesmo estilo… a relação é mais de género e sub-género e penso que talvez este paralelismo fosse adequado há 10 ou 12 anos atrás quando o digital surgiu como uma disciplina do marketing mas hoje em dia o digital está presente em quase todas as estratégias de marketing e desdobra-se ele mesmo em tantas “sub-categorias” que não me parece uma comparação adequada.

Agora, a cultura Hip Hop moldou-me como marketer e há muito a aprender com ela, para quem se interessar. Achas que é difícil escrever um tweet e passar a mensagem em apenas 280 caracteres? Experimenta fazê-lo num verso onde todas as palavras rimam entre si, fluem num beat dentro do tempo e ainda têm duplos sentidos.

Aprendi tudo o que sei sobre copywriting a “estudar” lendas do liricismo no rap. Outras lições valiosas incluem storytelling, product placement e como criar tribos e comunidades – artistas bem sucedidos em géneros alternativos como o hardcore ou indie mostram bem o poder que têm mil fãs verdadeiros (1,000 true fans).

Portugal, Emirados e EUA. Quais as maiores diferenças culturais, profissionais e a nível de marketing e road map/go to market? 

Em Portugal há as óbvias barreiras inerentes a um mercado bastante pequeno e com um poder de compra limitado. Temos ainda um longo caminho a percorrer no digital e na modernização das empresas. As diferenças culturais são mesmo muitas. Nos EUA há uma cultura muito forte de produtividade e focada em resultados, em crescimento rápido, o que é bom mas que também pode resultar num ambiente de trabalho com maior pressão (até porque não há grandes proteções laborais).

Há uma tolerância ao risco muito maior, há espaço para testar e falhar, investe-se muito mais em ferramentas e em formação. São mais pragmáticos e menos formais: os títulos não importam tanto e, embora isto varie conforme o ambiente é mais ou menos corporate, não há a cultura dos doutores e engenheiros que sempre me criou uma certa alergia em Portugal.

Há menos barreiras à entrada, é mais fácil criar um negócio e lançar um produto, mesmo que seja de nicho. Em Portugal temos a tendência a sub-valorizarmo-nos e isto nota-se nas políticas de preço. Muitos empreendedores têm receio de cobrar um preço justo ou adequado ao posicionamento que pretendem, nivelam por baixo e isso mata um negócio à nascença.

Os Emirados são um pouco um mundo à parte. Já mudou bastante desde que lá trabalhei (de 2013 a 2015) mas na altura foi uma mudança de escala que me impressionou. Passei de ter de fazer esticar orçamentos sempre muito curtos em Portugal a de repente ter capacidade para fazer coisas ambiciosas sem que o investimento fosse questionado.

A caricatura do luxo tem um fundo de verdade, há realmente uma cultura de querer fazer tudo em grande. Por outro lado, o ritmo de negócios em si é lento, bastante lento. É o ritmo do deserto. Há muita sempre muita burocracia e culturalmente as coisas levam o seu tempo (a não ser que estejamos a falar de construção… erguem-se arranja-céus “em dois dias”).

O facto de conviverem ali muitas nacionalidades diferentes torna o mercado de trabalho muito interessante, aprende-se muito com as perspectivas diferentes e há toda uma sensibilidade que tem de se ter com a cultura local e o background de cada um.

Em termos de go to market achei muito interessante porque havia um ecossistema de startups dinâmico mas com alguns desafios muito específicos.

Nos EAU há poder de compra elevado mas o mercado em si é pequeno, então para ganhar escala estruturam-se negócios para actuar em toda a região do golfo ou no médio oriente no geral. O problema é que se trata esse mercado como se fosse unificado só porque partilha a mesma língua, mas depois na prática a região é muito fragmentada. São culturas diferentes, leis diferentes e até a língua árabe em si difere muito, o que complica as coisas.

O que é que Nova Iorque, Dubai e Portugal têm em comum? Comida excelente. Fora de brincadeiras, não encontro muitos pontos comuns entre fazer negócios (ou marketing) nos três sítios.

A nível de empreendedorismo, a cultura americana é mais receptiva ao falhanço e em Portugal é encarado como um fardo. Tens algum projeto próprio que não correu como planeado e quais as lições que tiraste? 

Quem me dera que fosse só um! Tenho vários e as lições também são várias. Algumas são muito específicas para cada negócio, por exemplo o primeiro que lancei quando tinha 22 anos falhou por inexperiência, porque estava dependente de um único fornecedor e quando houve uma quebra no fornecimento não consegui colmatar a perda de receitas.

Outros falharam porque eram nichos demasiado pequenos em Portugal para serem rentáveis.

Talvez as duas lições mais importantes que retirei de negócios que não correram como esperavam foi que (1) os teus cofounders e as pessoas com quem escolhes trabalhar são mais importantes do que a ideia ou modelo de negócio, e (2) o empreendedorismo é um caminho difícil e é fundamental ter um propósito que nos guia porque correr apenas atrás do dinheiro não é suficiente. Estes dois elementos (equipa e propósito) são essenciais para nos segurarem nos pontos baixos porque é mesmo uma montanha russa.

Já que mencionaste a diferença entre a cultura Portuguesa e Americana, tenho uma história curta que a ilustra perfeitamente.

Há 10 anos atrás um sócio-gerente perguntou-me numa entrevista de emprego com um tom desafiante: “se o teu negócio falhou, porque é que devo confiar em ti para gerires a minha empresa?”. No ano passado, numa entrevista com o CMO da empresa para a qual trabalho agora mencionei que a minha startup tinha falhado e ele responde-me apenas: “good for you.”

Os Americanos encaram o falhanço como uma ocorrência banal a caminho do sucesso. Nós temos culturalmente um grande estigma com isto. E apesar de eu ter uma boa tolerância ao risco e ser bastante optimista, não sei muito bem lidar com o (meu) insucesso. Não estou habituada a falhar e tenho que fazer um esforço consciente para contrariar isto. Essa é a terceira grande lição: é importante ultrapassar rapidamente o desânimo e a desilusão porque quanto mais cedo o fizermos, mais cedo seguimos em frente rumo ao projecto seguinte.

Há sucessos que marcam. Em 2011, fizeste parte da equipa que conceptualizou e levou à criação do Live Beach, em Mangualde(e que ainda perdura). Qual foi a estratégia aplicada e qual a lógica do local escolhido? 

Fizemos um estudo de viabilidade económica. Logo há partida havia dois critérios que eram absolutamente essenciais: tínhamos de escolher uma cidade do interior longe o suficiente da costa para não concorrer com praias naturais e era necessário um mínimo de habitantes para que o investimento fosse rentável.

Identificámos a zona de Viseu como ideal porque cumpria estes dois critérios com o acréscimo que a população cresce bastante no Verão com o fluxo de emigrantes que regressa para as férias na sua terra Natal. Depois é uma questão de encontrar uma autarquia receptiva ao projecto pois o alinhamento com os governos locais é fundamental neste tipo de investimento. Encontrámos em Mangualde um excelente parceiro.

Ao longo do teu percurso trabalhaste várias vertentes do Marketing e em diferentes áreas. A abrangência é essencial para a especialização ou a abrangência permite mais opções de fazer carreira trabalhando diferentes projetos? 

A tendência actual é para a híper-especialização e como tal o recrutamento depois também acaba por refletir isso mesmo. Vê-se nos anúncios em que, pela lista de critérios (um bocado irrealistas, diga-se de passagem), se deduz que se procuram profissionais com vários anos de experiência em determinada indústria, determinada vertente (e sub-vertente) do marketing e às vezes até X anos a trabalhar com determinadas ferramentas.

Esta tendência é boa e má. É boa porque nos permite ser mais precisos tacticamente mas é má porque pode produzir profissionais sem visão periférica e que não têm bases sólidas naquilo que é fundamental.

Quem tira cursos profissionais de alguns meses para ganhar competências numa vertente específica deve procurar entender onde essa peça encaixa na estratégia de marketing. Também existe um maior risco de obsolescência: é preciso estar constantemente a aprender para não sermos ultrapassados por ferramentas e tendências que de repente são a nova moda. Quem tem bases consegue facilmente adaptar-se, mas estas não podem faltar.

Eu escolhi propositadamente a abrangência (vs. a especialização) e tenho tido o privilégio de ao longo da minha carreira ter passado por inúmeras indústrias diferentes, funções completamente distintas e mercados geográficos distantes.

Portanto teoricamente a abrangência permite fazer carreira a trabalhar em diversos projectos mas não é nada fácil. Mesmo para um profissional senior, encontrar emprego com um CV abrangente pode ser um entrave quando do outro lado estão à procura de alguém que caiba numa caixa. Especialmente para um recrutador que é quem faz a primeira triagem de CVs e tem uma lista de requisitos à frente.

É preciso ligar os pontos no CV para o recrutador e deixar claro que existe um fio condutor no nosso percurso senão caímos facilmente em estereótipos negativos: job hopper (salta pocinhas?), com falto de foco, à deriva, etc. Temos de saber reduzir essa incerteza, apresentando uma história com um fio condutor, demonstrar competências transferíveis e se possível ir directamente ao hiring manager. Isto dava uma resposta longa demais (costumo falar sobre este tema no Casa Trabalho Casa, o meu podcast) mas acrescento apenas mais isto: abrangência não significa falta de expertise. No meu caso desenvolvi expertise em estratégia e um bom estratega consegue identificar padrões em qualquer área.

A certa altura reestruturaste um departamento de Marketing. A estrutura é a base para o sucesso? E no presente, o Marketing é mais um comportamento do que um departamento?

Estava numa multinacional há 6 meses onde trabalhávamos muito em silos. Fui identificando pontos de melhoria e tracei uma estratégia de crescimento que implicava uma restruturação e contratações adicionais.

Fui espontaneamente ao CEO para a apresentar e foi bem recebida. A estrutura é fundamental para escalar o negócio mas sem dúvida que o marketing é um mindset que influenciar todas as decisões estratégicas e deve permear a organização de forma transversal. É da responsabilidade da liderança executiva estabelecer valores e uma promover cultura virada para servir os colaboradores (marketing interno) e o cliente, mas cabe ao marketing influenciar essas decisões, criar ferramentas e “evangelizar” mesmo dentro da organização.

Após um início numa multi-nacional, lançaste um e-commerce de merch de anime e lançaste uma pop-up store que até vendia caixas musicais alemãs. Passar do corporate para o “rock n roll” foi necessário para um “I Can Get Satisfaction”?

Desde o início da minha adolescência (quando percebi que nunca ia ser jogadora profissional de futebol) que sei que o quero é ter uma empresa minha.

Não tenho jeito nenhum para artes, mas tenho imensa criatividade e o que gosto de criar são projectos e arrancá-los do zero.

Despedi-me da multinacional onde trabalhava porque ao fim de um ano tinha estagnado em termos de aprendizagem e não tinha margem para expressar a minha criatividade.

Também não gostei particularmente do ambiente corporate, sou mais virada para uma cultura menos formal e mais ágil. Essas duas empresas foram força das minhas circunstâncias aos 22 anos. Entretanto tenho vindo a descobrir o meu propósito que ainda está solidificado nesse meu “sonho” de adolescente mas que hoje é mais maduro.

Não basta ser um projecto empreendedor. Tem de ser um negócio escalável que me permita criar inúmeros postos de emprego, desenvolver projetos interessantes e devolver à comunidade.

Tenho uma colecção de “pessoas” num bloco de notas que carrego comigo há anos. Pessoas talentosas com quem me cruzei ao longo dos anos e com quem gostaria de voltar a trabalhar. Adoro ver o potencial dos outros, perceber como as peças encaixam e no fundo o que ambiciono um dia é criar a estrutura necessária em torno dessas pessoas para que façam aquilo que fazem melhor e que as realiza.

A teu ver, quais são as próximas tendências no Marketing e quais as coisas que já existem nos Estados Unidos e que irão chegar em Portugal nos próximos anos?

Não me atrevo a fazer futurologia e já vivo fora há 7 anos para conseguir medir o pulso ao mercado português. Mas uma coisa que costumo recomendar a quem me pergunta como se manter relevante em marketing – visto que é uma área em constante evolução – é precisamente pesquisarem por anúncios de emprego no LinkedIn, definindo a área como marketing e a localização como Nova Iorque, Los Angeles ou Bay Area. E depois observar com atenção os resultados: ver os títulos dos empregos, as descrições de função, os requisitos pedidos.

É um exercício muito bom para identificar que áreas estão em crescimento, que ferramentas são utilizadas, que skills têm procura. As coisas às vezes levam um pouco a chegar a Portugal mas eventualmente chegam (e cada vez mais rápido) por isso é bom para estar um passo à frente.

Tenho várias colegas a trabalhar em marketing que me dizem que as empresas têm bases de dados gigantes mas não fazem quase nada com a informação dos clientes. Isto é literalmente deitar dinheiro pela janela fora. A tendência é para que TUDO seja medido e optimizado.

Algumas áreas a crescer imenso em b2b: demand generation, ABM, customer success, conteúdos (conteúdos a sério! Não é só escrever uns blogs), field marketing. Algumas destas áreas parecem “novas” mas quem anda nisto há uns anos facilmente percebe que são evoluções naturais de coisas que sempre foram fundamentais no marketing.

Uma função cada vez mais importante, à medida que os departamentos de marketing adoptam cada vez mais ferramentas (MarTech), é a de marketing operations.

Uma pessoa com conhecimentos de marketing que consegue analisar as necessidades de cada função no departamento, mapear esses requisitos, recomendar ferramentas, documentar processos e gerir essas mesmas ferramentas.

Na empresa onde trabalho agora, a minha equipa usa 43 softwares diferentes. Alguns são essenciais para o dia-a-dia e estão todos integrados entre si – se um deles falha tem consequências desastrosas. E quando pequenas coisas são optimizadas ou processos são simplificados, têm impacto imediato na nossa produtividade e resultados.

Se a tua vida fosse um Pitch, como seria?

Não sei se é propriamente um pitch mas gosto da máxima que diz que “ninguém te deve nada”. Isto representa duas coisas: (1) é o oposto de uma postura de entitlement – não esperamos sentados nem entregamos a responsabilidade do nosso sucesso (o que quer que isto represente para cada um) a terceiros, circunstâncias ou factores externos e (2) ao mesmo tempo faz com que não nos centremos tanto em nós. Parece paradoxal mas não é. Se nos focarmos em entregar valor, a cultivar empatia e ajudar os outros, eventualmente a balança equilibra-se. Não acredito no “Universo” mas acredito em compounding.

“Só pode ser considerada inovação se der frutos, senão é uma ideia.”​

Foi atleta de alta competição, participou na seleção nacional de basquete, e também foi campeã de kickboxing. Com mais de 11 anos de experiência, conta no seu portefólio com marcas como a Danone, Disney, Deloitte, Nestle e Microsoft. Com passagens pela Brandel em África à dinamarquesa Green Innovation Group, atualmente é CEO da Business Avenue, empresa que criou para ajudar empresas no Desenvolvimento de Negócios.

Foram duas frases da Vera que me levaram a pensar “É a convidada ideal para falar de negócios nos Desconstruindo”.

A primeira foi “Portugal, muito por ser um país “anfitrião” de outras culturas, tem um sentido de serviço muito forte. Independentemente da área de negócio, assisto muitas vezes o cliente a controlar o empresário e não o contrário.”

e um excerto no blog em inglês “(…)Numa das sessões estratégicas destes projectos, estava em curso um debate sobre um produto direccionado para a população local onde a marca sabia conscientemente que iria causar graves problemas de saúde e ainda assim a estratégia foi aprovada. Foi a primeira vez que saí de uma reunião, de um projeto e de uma carreira, no mesmo momento, apenas para dar voz aos meus valores.”

Portanto foi difícil escolher um título porque muito que diz é possível “quote”!!

Vera Costa Pereira no Desconstruindo #9 sobre Desenvolvimento de Negócios

Tal igual num combate os negócios podem ser um carrossel de emoções e dificuldades. A resiliência psicológica e a agilidade são o fator chave do sucesso para ser um Rocky em vez de um Rookie?

A tua pergunta fez-me viajar para um cenário com empresários ao som do “Eye of the Tiger” a subir energicamente as épicas escadas do Rocky.

Sabes eu sou uma defensora fervorosa da resiliência como principal “drive” para o sucesso, não acredito que consigamos nos apoiar na motivação nem no sonho, porque estes vão e vem. Agora a resiliência (e um toque de teimosia) é a capacidade que distingue os bem sucedidos, basta pensarmos nos indivíduos que admiramos, nas diversas áreas.

A resiliência permite executar e esse é o caminho mais perto entre o que somos e o que queremos ser.

Quando analiso uma Startup, analiso primeiro se o empresário tem os 3 C’s, i.e., se começa, se continua e se conclui os seus objetivos. Só assim nos podemos focar em fazer a empresa crescer.

Como o Desenvolvimento de Negócios e as Vendas podem trabalhar em conjunto para uma maior lucro?

Tínhamos pano para mangas, mas de forma prática o desenvolvimento de negócio é o ato de operacionalizar a estratégia.

Para começar é preciso interiorizar que um bom negócio sabe onde está e para aonde vai. Caso não tenha uma estratégia sua então significa que segue a estratégia dos outros, o que deixa o negócio fora de controle e à deriva.

Quando os objetivos estratégicos são desconstruídos em táticas para a organização estamos assim todos a remar para o mesmo lado, e os resultados surgem em mais vendas, mais faturação e mais liquidez. Este estado é a chamada “pilotagem”.

Mas nota, que muitos empresários têm como objetivo estratégico a faturação e isso limita-os à nascença.

O online e o crescimento do e-commerce e plataformas como o Shopify facilitam o lançamento de um produto mínimo viável e o teste ao mercado? E quais são os maiores erros ao lançar um produto e quais são os próximos passos cruciais após os testes?

A metodologia Lean veio revolucionar as startups e a criação de MVPs, contudo entrar no mercado com um produto frágil pode causar dissabores como, critica negativa, desajuste entre o preço real e o custo, problemas de distribuição, canibalização por parte dos players com mais recursos, entre outros.

O maior erro é o empreendedor não criar o MVP em torno do cliente e do seu perfil. O que eu quero dizer com isto, é que eu posso ter a melhor ideia do mundo, mas se não for vendável não adianta de nada. Outro erro é não fazer uma boa análise de riscos de modo a antecipar ou até mesmo colmata-los. Não me canso de reiterar a importância da estratégia em todas as fases do negócio.

Quanto aos próximos passos um dia ouvi a Sara Blakely – criadora da Spanx e presença assídua no Shark Tank USA – numa palestra a dizer o seguinte “The first thing you do is to hire your weakness.”, tenho de concordar com ela.

E quais são as maiores diferenças que notas em estratégias não tão funcionais e em estratégias com maior resultados? 

Posso apontar duas, que na minha opinião são transversais, a primeira são as crenças limitativas dos empresários. A estratégia não é boa apenas porque sempre se fez assim, a estratégia é boa quando agrada ao cliente ao ponto de o fidelizar e tem um bom retorno financeiro. De outro modo trabalhamos para aquecer e ninguém escolhe ser empresário para uma vida assim.

A segunda, vai de encontro aos empreendedores e ao mundo “iludido” das startups, a inovação é uma técnica para nos diferenciarmos no mercado e só pode ser considerada inovação se der frutos, senão é somente uma ideia. Temos e devemos construir as nossas ideias em torno de um cliente tipo, que normalmente sofre de alguma frustração ou dor que, o nosso produto vai colmatar.

O mundo dos negócios pode ser duro e com um grande foco no dinheiro. Como África mudou a forma que vês a vida e os negócios?

África tornou-me justa, verdadeira e a valorizar mais ética nos negócios que o dinheiro.

Eu sempre trabalhei com empresas com cultura nórdica, a primeira foi irlandesa, depois alemã e por aí em diante. Quando cheguei a Moçambique, foi um choque cultural imenso, um verdadeiro teste à minha resiliência enquanto ser humano e profissional. Vi muita coisa boa a acontecer, e tive oportunidade de lançar produtos que deixaram marca na sociedade moçambicana.

Por outro lado, vivi a crueldade da ambição. Perceber que eu fazia planos go-to-market de milhões e os operacionais que os executavam tinham um ordenado de 100 euros, foi das realizações mais duras da minha vida.

Por isso, hoje sou justa no meu preço, justa com os meus colaboradores e não faço floreados aos meus clientes.

Escreveste que “Aprendi a trabalhar fora de Portugal uma das lições mais complexas do mundo empresarial, a ginástica entre a empatia e a assertividade(…)”. O controlo por parte do cliente coloca a empresa ou o empresário de pernas para o ar? 

Garantidamente. Cria arrombos brutais na liquidez, pressão na equipa e no empresário.

Dou muitas vezes o exemplo do hamster na roda que corre, corre e não chega a lado nenhum, é desgastante.

E após o “pino” é possível voltar a ter controlo?

Claro que sim. Tem de se começar a pensar de outro modo, acrescentando valor ao nosso produto/serviço nos bons clientes – uma dica que costumo dar é pensar num rácio 1:10 em que 1 é o valor que o cliente paga e 10 são as coisas que recebe em troca – enquanto os educamos nas novas regras da casa.

Os clientes nocivos irão naturalmente à vida deles, e os novos já entram numa cultura diferente.

Parece fácil, mas como alguém comentou recentemente num dos meus posts “é na complexidade da simplicidade que está a dificuldade”.

Qual o resultado da tua carreira que destacarias num livro de negócios e qual foi a estratégia para alcançar?

Ufa são muitos, mas vamos lá…

A título de contexto, e para que percebas o porquê da estratégia, um dos grandes problemas de trabalhar com mercados africanos são as transações em dólares e a dependência que as empresas têm dos bancos e da disponibilidade de moeda.

Na altura eu trabalhava como Diretora de Desenvolvimento de Negócio na Brandel, uma agência de Marketing local, que representava grandes marcas e fazia campanhas milionárias.

O que seria ótimo, não fosse o constrangimento constante com o banco. Repara que não entrando a adjudicação para cobrir os custos, tínhamos de ser nós a adiantar o dinheiro. Estás a ver onde estava a crise financeira…

Na altura o que eu fiz foi criar um produto de publicidade estática, onde o meu cliente como, por exemplo, uma Unilever, pagava um ano de serviço na adjudicação com um markup de 20%, mas eu localmente geria e negociava com fornecedores mensalmente. Para além de garantir a almofada de capital que nos permitia adiantar pagamentos para as campanhas a decorrer, ainda conseguimos lucros na ordem dos 40% sem um grande esforço.

Se a tua vida fosse um livro, como seria a sinopse? 

Nascida a 4 de fevereiro de 1985 e criada em Quarteira, na altura ainda vila, demonstrei cedo uma forte determinação e engenho para contrariar as adversidades da vida. Dificilmente me ficava com um não. E por isso aprendi muito cedo a ser adulta e a conquistar o meu lugar a pulso.

Aprendi o que era contabilidade aos 6 anos, o que recordo com alguma leveza pois era uma maneira do meu pai me manter por perto já que tinha 2 trabalhos e a minha mãe estudava à noite. Esses momentos de “brincadeira” adoçaram-me a boca para o mundo empresarial e desde de cedo soube o que queria ser quando cresce-se… EMPRESÁRIA. Fui atleta de alta competição, participei na selecção nacional de basquete estando em competições internacionais, mais tarde consagrei-me como campeã de kickboxing.

O desafio é o drive que me motiva, a conquista e a forte ética profissional que adquiri do meu pai.

Por eu ser uma mulher de causas, os valores humanitários pautaram todo o meu caminho na vida adulta, encarar a pobreza e desigualdade são aqueles momentos únicos no crescimento emocional de alguém. África é um choque, daqueles que nos percorre o corpo, deixamos de saber quem somos por momentos.

Ao longo da minha carreira, trabalhei em dezenas de projetos em 16 países, ajudando empresas a encontrar parcerias ou soluções criativas que transformaram as suas propostas tornando-as efectivas e atractivas ao mercado.

Com mais de 11 anos de experiência, conto no meu portefólio marcas como, Danone, Disney, Johnny Walker, Nestle, Compal, Smirnoff, Mariotte Hotel, Huggies, Unilever, KPMG, BCG, Deloitte, BPI France, Grant Thornton, PwC, Best Bank, Caixa Geral de Depósitos, Nova, AWS, Microsoft, Catapult energy systems e Sector Públicos, como o Ministério do Mar em Portugal e Foreign and Commonwealth Office Reino Unido entre tantas outras.

Sou uma mulher de convicções fortes, quem fala comigo percebe a alma que dou a tudo o que me proponho e hoje a minha missão, é capacitar pessoas e negócios a se unirem e elevarem os seus resultados.

Desconstruindo #1 João Geada e a Publicidade

“Acho a palavra certa no contexto certo vale mais que mil palavras”

Desconstruindo #2 Raquel “Esta Pessoa” e o Storytelling ”

“Independentemente da forma que damos às histórias, vamos sempre ter que partir de uma reflexão muito pessoal”

Desconstruindo #3 André Amorim, o Desporto e as Pessoas nas Empresas

“Quando se sentarem diante de um candidato procurem conhecer a pessoa em vez do profissional.”

Desconstruindo #4 Elsa Fernandes e a Escrita Web

“Para comunicar as suas mensagens, as marcas não precisam (nem devem) sacrificar a verdade.” 

Desconstruindo #5 Carlos Guimarães Pinto e Portugal

” A única forma sustentável de aumentar salários é termos mais empresas a competir pelos mesmos trabalhadores”

Desconstruindo #6 Paulo Rosas e as Redes Sociais

“O algoritmo não morreu, o que morreu foi a excelência de conteúdo”

Desconstruindo #7 Vanessa Carreiro Amaral, a Twitch e o Gaming

“A Twitch é ainda um diamante em bruto, com um potencial gigantesco”

Desconstruindo #8 Pedro Machado, Seo, e o Humor nos Conteúdos “Em muitos anúncios sobre SEO vê-se o equivalente aos comprimidos de emagrecimento”

O Desconstruindo é uma rubrica onde se dá voz a profissionais numa desconstrução de um tema, e por vezes, de forma algo filosófica mas muito prática e real.

“Em muitos anúncios sobre SEO vê-se o equivalente aos comprimidos de emagrecimento”​

O Pedro Machado trabalha em SEO e Conteúdo na Infraspeak e os mais atentos na rede acompanham as suas publicações com uma pitada de humor. Portanto a forma como nos conhecemos digitalmente só podia ser algo cómica.

Em 2014, o Pedro Barbosa e o Pedro Machado fundaram o Cultura X um site apresentado como o “Buzzfeed Tuga”. Submeti a candidatura, contudo disse que pretendia fazer sketchs de humor animados em 3D. Depois percebi que errei na abordagem e criei uma persona feminina para escrever artigos e fui aceite.

Passados uns anos visitamos o perfil um do outro e assim que vi “Cultura X” enviei uma mensagem a relembrar a coisa, dado que a certa altura tinha sido descoberto.

Ok, não é uma “cunha”! Genuinamente acho que o Pedro Machado cria conteúdo que merece ser lido. Ele também acha porque encheu a entrevista com os links dos seus artigos 😂

Desconstruindo #8 Pedro Machado, SEO e o Humor nos Conteúdos

Empresas/profissionais que prometem resultados rápidos e outros com planos estruturados e com resultados após muito trabalho…o SEO tem um paralelismo com a perda de peso?

Por acaso há semelhanças. Em muitos anúncios de prestadores de serviços de SEO vê-se o equivalente aos comprimidos de emagrecimento em 7 dias e cremes para queimar barriga — “10.000 backlinks de qualidade RÁPIDO”, “Posição #1 do Google garantida”, “Sinta-se mais sensual com estes extraordinários featured snippets”.

No SEO não existem resultados garantidos e muito menos rápidos. É um investimento a longo prazo. É preciso planeamento em condições, é preciso muito trabalho de vários tipos e, geralmente, os resultados só são visíveis depois de meses. Tanto que, por vezes, se acaba por descuidar o SEO para focar esforços em canais pagos, que geram resultados mais imediatos, apesar de o orgânico ser muito mais sustentável a longo prazo.

Sou menino até para dizer que é mais fácil perder peso com todo o trabalho e ansiedade envolvidos numa estratégia de SEO decente do que com cremes para queimar. Pensem nisso.

SEO é muito mais do que luzes de semáforos de um plug-in?

Sem dúvida. Claro que os plugins dos semáforos cobrem alguns aspetos mais básicos do on-page SEO e são, obviamente, importantes; assegurar luzinhas verdes já é um excelente princípio para conseguir posicionar bem. 

Mas sim, o SEO vai muito além disso. Desde estratégia de conteúdo a link building, passando pelo SEO técnico (velocidade de carregamento, arquitetura de site, dados estruturados…) e mesmo pela gestão, analytics, reporting… há muita coisa diferente e complexa além do on-page.

A problema é que muita gente (normalmente pessoal mais generalista no marketing digital e/ou menos experiente), diz saber SEO com base nas “luzes de semáforos”, o que é quase o mesmo que dizer que sabemos o Código da Estrada com base nas… luzes de semáforos.

É o efeito de Dunning-Kruger e também já passei por ele — achamos que sabemos muito, depois descobrimos que afinal não sabemos quase nada, ficamos deprimidos, tomamos Valium, viciamo-nos em Bollycaos e só depois é que começamos, efetivamente, a saber do assunto. Tudo normal.

Se o SEO fosse uma rádio seria a Semântica FM? Como se sintoniza o Google a interpretar o conteúdo?

Sei que a Renascença não seria de certeza, porque o SEO evolui rápido e não se prende às tradições dos anos 30 (não me estragues a comparação, se faz favor, não quero saber se não havia SE0 nos anos 30). 

Respondendo à tua questão, o algoritmo da Google está cada vez mais evoluído na capacidade de interpretação (isto é, na determinação do tema e da qualidade) do conteúdo; reconhece, por exemplo, termos semanticamente relacionados (“keywords LSI”) para compreender os tópicos das páginas. E é por isto que, ao contrário do que muito se fez ao longo dos anos, não podemos “escrever para SEO” — é importante criar conteúdo natural e escrever normalmente, como se estivéssemos a conversar, em vez de recorrer a técnicas infelizes como a repetição de target keywords que nem a letra do Baby Shark.

Aproveito para fazer um shameless plug para o meu artigo sobre este tema.

Qual a personagem do Star Wars que faria uma analogia perfeita com trabalhar SEO e fazer a gestão de um blog em 4 línguas diferentes? (Nesta descobrimos que por alguma razão o Facebook meteu gosto no Star Wars e ele nunca viu um filme).

Não tinha intenção de ferir susceptibilidades, mas é a isso que me obrigas: nunca vi um filme do Star Wars completo. Mas calma. Antes que os fãs me apareçam à porta de casa com tochas e sabres de luz, tenho uma explicação perfeitamente válida e compreensível: nunca vi o Star Wars, mas só porque é um nojo e não me apetece.

Ainda assim, vou usar o meu conhecimento limitado de Star Wars para responder na mesma e dizer que seria o Chewbacca, visto que “RAWRGWAWGGR” é a única coisa que consigo articular depois de um dia inteiro a escrever e editar textos em vários idiomas.

Numa nota mais séria, trabalhar SEO e gerir conteúdo em 4 línguas implica saber gerir prioridades (porque não há tempo para tudo), ser consistente e eficiente e ser capaz de desenrascar soluções em cima do joelho. Agora diz-me tu que personagem é esse. 

E já agora, era muito mau se eu pusesse aqui mais um link para o meu artigo sobre esta questão?

Ao pesquisarmos “SEO” no Google levamos com imensos artigos com “O que é o SEO” no ínicio do título (até na quinta página existem artigos assim). Existe espaço para a diferença na escolha para o “olho” das “aranhas” ou robôs” dos motores de pesquisa?

Não existe grande espaço para escolha porque o principal objetivo do Google não é dar muitas opções de escolha diferentes, mas sim apresentar o resultado mais útil possível ASAP. É tudo uma questão de search intent.

Quanto uma pesquisa é feita, ela é feita com uma intenção em mente (comprar ou obter informação, por exemplo). A partir do momento em que o Google determina a principal intenção por detrás de um termo de pesquisa, as páginas de resultados são ajustadas para mostrar os resultados que satisfazem essa intenção nos primeiros lugares. Pegando no teu exemplo — o algoritmo da Google determina que, geralmente, quem pesquisa “SEO” está à procura de saber o que é; logo, vai meter esse tipo de resultados acima dos restantes. 

Na fase de keyword research, é importante investigar as SERP para os nossos termos de pesquisa, para perceber qual é o search intent (refletido nos resultados da primeira página) e, idealmente, criar conteúdo com ele em mente. Isto leva a que, muitas vezes, se criem páginas com propósitos — e, logo, títulos — muito semelhantes a outros que já existam.

O que vou dizer é totalmente uma wild guess, mas acredito que o efeito seja especialmente acentuado neste exemplo em específico. Quem cria artigos sobre SEO sabe, à partida, mais sobre SEO e, portanto, sobre a questão do search intent, o que faz com que mais rapidamente repliquem a abordagem dos artigos que já estão bem posicionados.

Se eu fosse um gajo sem escrúpulos, metia aqui mais um link para o meu artigo sobre search intent.

Numa internet cada vez mais imprevisível a nível de sensibilidades, como e quando usar o humor na criação de conteúdos para as marcas?

É verdade que as sensibilidades na internet estão cada vez mais imprevisíveis, mas, no que toca ao humor no marketing de conteúdo, o princípio continua a ser o mesmo: fazê-lo apenas quando se souber que é seguro, isto é, que não compromete a imagem da marca nem a credibilidade do produto ou serviço. A determinação do que é seguro ou não, isso já dependerá de caso para caso; é uma questão de sensibilidade, de conhecer a audiência e até de fazer testes.

Para algumas marcas, o humor está fora de questão, como produtos de luxo, ou compras que impliquem algum risco financeiro. Ninguém vai comprar um Ferrari depois de ver um anúncio com uma piada estúpida e auto-depreciativa sobre ele. Mas para as restantes, à partida, pode ser vantajoso (claro que, na prática, depende sempre de alguns fatores como a identidade já criada pela marca). 

Nalgumas indústrias, é quase obrigatório. Pensa em produtos mais mundanos — alimentares, higiene, electrónicos e por aí adiante. A concorrência é tanta, o risco de uma compra é tão baixo e já há tantas marcas a trabalhar comunicação mais informal, que o humor (ou outra forma de comunicação menos convencional) é quase necessário para conseguir captar atenção e destacar da multidão.

Há um gajo, não posso dizer quem, que escreveu um artigo extraordinário sobre este assunto recentemente.

O humor além de humanizar pode acelerar o ritmo do texto?

Diria que há uma correlação, mas não necessariamente uma relação de causalidade. Ou seja, se calhar os textos com humor até fluem mais rapidamente, mas não porque têm humor. 

O que acelera o ritmo do texto é a escrita mais natural/informal, o “escrever como quem fala” que eu já mencionei acima. Saramago, para dar um exemplo conhecido, consegue acelerar o ritmo do texto pela forma leve como escreve e pelo uso menos convencional de pontuação. O que acontece é que, normalmente, quem tem jeito para escrever assim acaba também por ser capaz de criar textos com algum grau de de humor. Claro que isto não é minimamente científico, as minhas fontes são a minha cabeça e os 5 minutos que estive a pensar nisto.

A chave é mesmo escrever de forma natural e conversacional. Mais do que o humor, é isso que é indispensável na comunicação das marcas e, infelizmente, é algo que muitas delas não fazem.

A Cultura X criada em conjunto por ti e pelo Pedro Barbosa reuniu mais de 13 milhões de pageviews e mais de 800 mil visitantes únicos em apenas 1 ano, durante o período que esteve no ar. Qual foi o mote inicial e a estratégia utilizada?

O propósito do Cultura X foi sempre, do início ao fim, fazer diferente daquilo que era popular na altura e preencher a lacuna que havia em termos de conteúdo escrito, original, e que entretivesse sem emburrecer. Nesse ano (2014), as coisas mais consumidas eram memes e vídeos virais de sites tipo Tá Bonito, Tá Feio, Tá Fixe, Tá A Meter Nojo, Tá A Ficar Farto Disto Que É Tudo Igual… então percebemos que havia espaço por explorar. Pegamos e começamos um site com artigos de humor e entretenimento, direcionado ao pessoal mais jovem (uma espécie de BuzzFeed português, mas com mais jeito — posso estar enviesado) e posicionamo-nos como a alternativa ao conteúdo mainstream.

A distribuição foi quase exclusivamente feita em redes sociais, principalmente o Facebook, que ainda não era canceroso a nível de reach orgânico. O crescimento foi muito baseado na viralidade — criávamos diariamente e consistentemente conteúdo com que as pessoas se identificavam e partilhavam, tivemos coisas virais ao ponto de aparecerem na rádio e TV nacionais e de serem plagiadas até dizer chega (estas duas situações podem ou não estar relacionadas).

Além do social, éramos fortíssimos a nível de luzinhas de semáforo e conseguíamos imensos backlinks organicamente, pelo que as pesquisas orgânicas foram também uma fonte significativa de tráfego.

Se a tua vida fosse um título de um artigo como seria?

“Como ter 45 skills totalmente inúteis e não ser particularmente bom em nenhum: guia passo-a-passo [2020]”.

A Twitch é ainda um diamante em bruto, com um potencial gigantesco

Em 2015, no meu estágio de verão na Legendary lembro de escrever algo e receber o feedback da Account que a Vanessa aprovou os textos para a landing page.

Com uma evolução na Worten, a Vanessa é “the real thing” como Head of Social Media e mete mesmo as mãos na massa! Tem um canal na Twitch, um canal no Youtube onde experimenta diversos formatos (incluído Podcast com a rubrica Os Anti-Sociais) e é apresentadora em alguns dos conteúdos da marca.

Adepta de videojogos, da Twitch( e do Twitter) é a #7 convidada do Desconstruindo

Desconstruindo Vanessa Carreiro Amaral, o Gaming e a Twitch

A Worten é muito ativa com a comunidade gamer e criadores de conteúdos da Twitch e Youtube. Do Level Up ao Game Ring e à Game City, a jornada tem sido um Punk Rock com organização e sempre ligada à corrente para não ficar com “Low Battery”?

Tenho a sorte de trabalhar uma marca como a Worten. Uma marca de inovação, que tem perdido cada vez mais o medo de arriscar. Os projetos que temos lançado são um reflexo dessa atitude. Antes da minha chegada às redes sociais da Worten, eu já tinha desenhado uma ideia muito clara do que seria uma presença para a marca nas redes sociais. Pouco a pouco, vou conseguindo implementar alguns desses meus pensamentos. E, claro, fui ajustando-os para aquelas que são as guidelines do negócio e da própria marca. A Tecnologia é o maior eixo de comunicação da Worten. O gaming é relativamente recente. Mas ambos são muito importantes e complementares na estratégia da Worten. Logo, seria muito importante estarmos próximos destas audiências, destas comunidades, e uma das formas de o fazermos é através da criação de conteúdos sobre estes temas. Daí a nossa presença em YouTube com um magazine sobre atualidade tecnológica e novas tendências. E a presença na Twitch, sob a alçada da marca Worten Game Ring, com conteúdos exclusivos sobre jogos com algumas das caras mais conhecidas do meio e também algumas das novas caras, a quem queremos ajudar a dar visibilidade.

Tu própria és uma consumidora e criadora de conteúdos, na Twitch e Youtube, tanto a nível pessoal e para a Worten. Estar por dentro permite ser menos “Anti-Social” nas parcerias e apostar em criadores como o Morais, que pela personagem poderia não ser muito bem aceite pela maioria das marcas?

Acho que é muito importante conhecer as plataformas e o trabalho que está a ser feito por lá. Acredito que a melhor forma de o fazer é pondo as mãos na massa e “criar”/testar. No meu caso, a coisa fica facilitada porque tenho o “bichinho” da criação de conteúdos e isso permite-me conhecer os meios por dentro e por fora. Não só como funcionam do ponto de vista prático, como também quem são os seus maiores criadores de conteúdo e como fazem “a sua magia acontecer”. Quando a Worten assume que quer conquistar um mercado de Gaming, fez-me todo o sentido ativar uma estratégia de “influenciadores” deste meio. Só eles nos poderiam ajudar a atingir essas audiências e fazer com que essas audiências nos começassem a ver como “especialistas” no gaming. Não gosto do termo influenciador. Prefiro criador de conteúdo. Mas a realidade é que a influencia desta malta credibiliza a presença da marca em alguns temas/meios.

O Zorlak a fazer Stream de CS às 7:30 da manhã, o Morais a entrevistar a Carolina Torres no Talk-Show “Pichudo Beleza”, mulheres a fazer ASMR ou a NASA lançar astronautas para o espaço em direto. Afinal, o que é a Twitch?

A Twitch é um Universo de possibilidades. Tanto para criadores de conteúdo como para marcas, instituições e organizações, e ainda para meios mais “tradicionais” como a TV, rádio e imprensa. É a TV do futuro On Steroids! Para já, a maior parte do conteúdo que lá vive está associado aos videojogos e Esports, mas acredito que muito em breve teremos lá de tudo. Desde chefs com estrelas michelin, a gurus do fitness, a reality shows, a artistas das mais variadas áreas. Apesar de já existir há algum tempo, a Twitch é ainda um diamante em bruto, com um potencial gigantesco de alcance e de interação com audiências em real-time. Tenho muita curiosidade em ver como tudo se irá desenrolar.

A indústria dos E-Sports, milhões a assistir concertos virtuais no Fortnite. Os videojogos são muito mais do que videojogos? 

Os videojogos atingiram, finalmente, o estatuto de entretenimento. Finalmente! Como sempre foi o cinema, as séries e a música. O gaming também tem essa finalidade. Sempre teve. Se me entretém, se me traz alegria, se me move de alguma forma, é entretenimento. E melhor, pela sua componente interativa, os jogos tem capacidade de unir as pessoas, de criar relação, de criar memórias.

Há pessoas que jogam juntos 10 ou 15 anos e trabalham nas profissões mais diversas, desde de Advogado a Reparador de Estoros. Os videojogos são o escape caseiro perfeito após um dia ou semana de trabalho?

Podem ser. Assim como uma série de outras atividades. Eu prefiro um bom jogo com uma excelente história e personagens a um livro de ficção. Prefiro uma noitada com os meus amigos a jogar League of Legends, em vez de uma noite de cinema. Mas esse é o meu caso. Acho que tudo o que te divirta, ajude a abstrair um pouco da tua realidade e a relaxar deste mundo cheio de estímulos, é um bom escape. Cada um é como é. Cada um sabe o que é que lhe faz melhor e o que lhe dá mais prazer e descanso. O gaming é só mais uma possibilidade.

“Se os videojogos influenciam…as pessoas tomariam ecstasy após jogar Pacman”. Os videojogos apresentam mais benefícios do que malefícios? 

Jogar faz-me bem. Para além de me divertir, junta-me aos meus amigos. Mesmo que não estejamos a jogar juntos, é tema de conversa e de partilha de experiências. Acredito que, para algumas pessoas, jogos violentos sejam o gatilho para desbloqueio de impulsos desse género. Mas isso não é algo exclusivo ao gaming. Esses mesmos impulsos podem ganhar asas por toda a violência que nos chega através do cinema e até mesmo das notícias que são publicadas diariamente nas redes sociais. Há cerca de um ano, escrevi num tweet que “jogo FPS desde sempre e que nunca matei ninguém”. O problema não é os jogos. O problema é as pessoas, a falta de educação que leva à falta de bom senso e espírito crítico, e a falta de acompanhamento psicológico e psiquiátrico, por ainda ser um estigma social. Esses são os verdadeiros problemas.

Numa edição de “Clueless Gamer” contigo e com o Marcelo Rebelo de Sousa, que jogo escolherias para o presidente jogar?

O Solitário. Mesmo em tempo de pandemia, é difícil manter uma pessoa como o presidente em confinamento. Em alguns momentos, na minha opinião, fez falta que ele se acomodasse. Ele, e outros.

Se a tua vida fosse um videojogo, como seria?

Seria um RPG, com muitos plot Twists, mas com personagens fofinhos como no Crash Bandicoot. Teria a possibilidade de construção, como no Minecraft ou Fortnite, e ainda uma grande capacidade de encaixe, como num simples Tetris.

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Desconstruindo #1 João Geada e a Publicidade “Acho a palavra certa no contexto certo vale mais que mil palavras”

Desconstruindo #2 Raquel “Esta Pessoa” e o Storytelling ” “Independentemente da forma que damos às histórias, vamos sempre ter que partir de uma reflexão muito pessoal”

Desconstruindo #3 André Amorim, o Desporto e as Pessoas nas Empresas “Quando se sentarem diante de um candidato procurem conhecer a pessoa em vez do profissional.”

Desconstruindo #4 Elsa Fernandes e a Escrita Web “Para comunicar as suas mensagens, as marcas não precisam (nem devem) sacrificar a verdade.” 

Desconstruindo #5 Carlos Guimarães Pinto e Portugal ” A única forma sustentável de aumentar salários é termos mais empresas a competir pelos mesmos trabalhadores”

Desconstruindo #6 Paulo Rosas e as Redes Sociais “O algoritmo não morreu, o que morreu foi a excelência de conteúdo”

O Desconstruindo é uma rubrica onde se dá voz a profissionais numa desconstrução de um tema, e por vezes, de forma algo filosófica mas muito prática e real.

“O alcance orgânico não morreu, o que morreu foi a excelência de conteúdo”​

Foi um dos vencedores do Estágio Improvável da agência Torke. Passou pela equipa de multimédia do Benfica como Head of Social Media e Brand Content. Em 2013, aceita o convite da J. Walter Thompson (actual Wunderman Thompson). E trabalhou marcas como Vodafone Portugal, Cerveja Sagres, Ikea, Galp, Nestlé, entre outras.

Hoje é Formador, Creative e Cocial media consultant mas também Chief Innovation na direção do Lisbon Digital School.

O Paulo Rossas é uma presença habitual no meu feed e na minha cabeça foi sempre o “Sem Merdas”. O Desconstruindo sobre as Redes Sociais está ao seu estilo “sem merdas” e com muitos pontos de reflexão para profissionais, diretores e administrações.

Há administrações ou diretores de marketing que olham muito para as métricas de ego, que podem ser facilmente bombadas com anúncios de interação. Existe ainda uma iliteracia digital?

Ui, vamos por aqui. Existe muita sim, tudo porque este mundo tem muito de instinto e quanto tem muito de instinto o lamber o dedo e dizer “eu acho que” ainda é considerado estratégia. O instinto ajuda, mas é preciso olhar para os Objetivos e para aquilo que as métricas nos respondem para esses objetivos. O “gosto” ainda é a bitola. A minha mãe de 68 anos e entrou no Facebook o ano passado está numa ponta, o Diretor de uma grande empresa está na outra. Todas as pessoas aquilo pelo meio, trabalhando Digital ou não, sabem que se tem muitos “gostos” é bom, se tem poucos é mau. Esta é a bitola hoje em dia. Explicar isto e sair disto é muito complicado.

Facebook, Instagram, Twitter, TikTok, Snapchat, Youtube, Twitch, Pinterest, Linkedin e outras tantas. As redes sociais são tão vastas e por isso não há especialistas?

Ninguém é especialista de coisa nenhuma. Se tens de dizer que és especialista quer dizer que não és. Temos de trabalhar muito, todos os dias, todas as horas para estar a par deste mundo. Estas plataformas mudaram o mundo, mudaram formatos, mudaram formas de pensar. É preciso olhar para as que aparecem e perceber porque estão a ser utilizadas e como vai ser o nosso futuro. Os meus pais viam Tv em 4:3 eu vejo em 16:9 e o meu filho que tem 3 anos vê youtube em 9:16, formato da miudagem que nasceu com um telemóvel na mão.

Quais as marcas que recomendas acompanhar no Tik Tok?

World Healt Organization, Buzzfeed, VibeHouse Pt que é a antiga Team Strada e esta é mais para os pais saberem que um potencial pedófilo ainda anda por aí a construir marcas, ESPN, The Telegraph e se quiseres Royal Palm Properties. Uma bela imobiliária com milhões de fãs e só partilha…casas.

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Os mais jovens estão na linha da frente nas redes sociais e aplicações. Como se pode aprender com eles?

Falem com eles. Aprendam com eles. Absorvam o seu conhecimento. Temos que ser humildes e aceitar que não somos jovens. Ouvir, falar com a mesma linguagem e reconhecer mérito. O Bruno Almeida chegou ao 1 milhão no TikTok e o que eu escrevi foi exatamente o que se passou. Ele apareceu em 2016. É um trabalho de 4 anos, não foi ontem. Isso é valioso para eles, porque compreendo-os. Eles não têm o mesmo conhecimento do que eu, eu procuro todos os dias informação sobre as plataformas, testo as plataformas praticamente todos os dias, tenho excell do TikTok desde Agosto de 2019. Mas esou daquelas pessoas que quer saber mesmo o que se passa e trabalhar o que pode vir a seguir.

Se trabalhar redes sociais para as marcas fosse um episódio de Seinfeld como seria?

Seria o George Costanza Social Media Manager a tentar jantar com uma famosa que conheceu num desses eventos que teve de marcar presença e tirar fotos, num dia em que está a ocorrer algo dessa marca live e tem de postar a todos os momentos.

Conseguiu convencer o Jerry e o Kramer a ir ao evento por ele e enviarem as fotos pelo Whatsapp. Problema, eles tiram só fotos horríveis e não estão a ajudar. E eles está a passar-se porque eles não sabem o que são Stories ou 9:16 e está a perder o timing, quer do trabalho quer do jantar com a famosa, que na verdade tem de ir a esse evento fazer uma presença depois do jantar. Coisa que o George Descobre no final do episódio que ela esteve lá e que podia ter utilizado de borla como influencer para a sua marca e fazer um bom trabalho.

A Elaine vai passar todo o episódio a seguir a marca nas Redes Sociais, ou seja, o evento e a criticar as fotos do George, a falar no grupo deles do Whatsapp, e no final, o George engana-se e mete uma foto dele na marca e é despedido. Ela imprime e forra a casa do Jerry com essa foto.

Acho que era isto.

O alcance orgânico morreu ou quem cava a sua sepultura utiliza como desculpa ao não ter um público, e conteúdos que disputam a atenção com páginas de memes?

O Alcance orgânico não morreu, o que morreu foi a excelência de conteúdo. Quantas páginas vais diretamente? Poucas, só aquelas que realmente tem coisas que gostas. O truque é esse. “Deixa cá ver o que eles andam a fazer!” Geralmente essa malta faz o quê? Coisas geniais e incríveis. Tão fácil como isto. As plataformas são grátis, os fãs são grátis, paguem bem às pessoas para fazer bom conteúdo que as pessoas realmente gostem. É mesmo assim tão simples.

As publicações com um conceito ou em real-time são uma forma de arte moderna?

Sim. As publicações com conceito deviam ser vistas ao mesmo nível de um Mupi. Na verdade um post é visto mais vezes do que um Mupi. Se é visto mais vezes do que um Mupi, porque raio não se fazem coisas com a qualidade de um bom Mupi? “Porque é um post!” Por favor, ganhem juízo. Estas publicações são intemporais e contam a história da marca. Vejo hoje ou daqui a 10 anos e percebo o que a marca me quer dizer.

Real-time é um aproveitamento. Não é intemporal. É ir na onda. Nós fãs estamos muito mais abertos a ver vários posts sobre o mesmo tema porque já sabemos qual é. As marcas devem usar o Real-time claro mas sempre com alguma ligação à marca, fazer por fazer é demasiado básico e redutor. Problema: Eu acho, desculpa, eu tenho a certeza que 8 em cada 10 Social Media Managers não sabem o que é um Insight, um Conceito e uma Ideia Criativa e isso dificulta o bom conteúdo.

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Como se gere a criação do real-time às 22 horas, mas os responsáveis pela conta estão num aniversário ou em outra atividade social?

Com dinâmica, com trabalho, com saber que tem de trabalhar porque é o seu trabalho e vai chegar a mais pessoas se o fizer. Qualquer pessoa que trabalhe Redes Sociais e se queixe por ter de fazer isto, sabendo que vai chegar a mais pessoas e é bom para a sua marca, não percebe este mundo. Está cá porque ganha uns trocos. Esse é um dos vários problemas deste mundo. A malta que está cá só porque não tem mais nada e pensa que é fazer posts. Não é. Isto é muito mais descobrir insights, conceitos e boas ideias.

Em marcas mais pequenas é normal “Influencers” pedirem produtos em troca de divulgação. Em alguns casos mais de 50% dos seguidores são homens. E não é enviado nenhum dado de vendas e CTR em stories de produto. Há uma grande diferença entre ser a “Pipoca Mais Doce” e “Pipocas com Mais Fotos com Bikinis”?

Grande parte das influenciadores e influenciadores falam com o corpo e não com a sua boca/cérebro ou se preferirem dedos de teclar. Já perceberam o truque, tiram roupa e a comunidade cresce. Tenho dois amigos, um segue 8000 pessoas, gajas de bikini e o outro 5000, gajas de bikini. Algum dia vai comprar um produto? Não! É um falso reconhecimento de trabalho. Culpa dos influenciadores, que não percebem que se estão a destruir e das marcas que só olham para a métrica do “gosto” e do “alcance”. Um influenciador devia ser um “Rock Star”, uma pessoa que dentro da sua Comunidade é uma estrela, e não um cardápio ou uma capa de um filme porno. Andamos muito errados na definição e as marcas são culpadas. São quem paga a festa e deviam pelo menos informar-se sobre este mundo.

Que ex-jogador do Benfica colocarias num Estágio Improvável em uma agência de publicidade na tua equipa de Social Media e Copywriting?

Obviamente o Paulo Lopes. Team player, engraçado, com coragem para fazer tudo o que pedirmos e sei que é boa onda. Além de tudo isso, tem os seus fãs e é genuíno e nesta área, é preciso isso. #NoBullshiting é das melhores valências que temos de ter.

Se a tua vida fosse uma campanha em Social Media como seria?

Seria um post orgânico do Dia de fazer o gesto do surfista. Provavelmente dava viral e ninguém conseguia explicar o porquê, e é isso mesmo que torna isto tudo muito mais interessante. Não conseguir explicar de onde é que veio, onde está ou muito menos para onde vai.

Desconstruindo #1 João Geada e a Publicidade “Acho a palavra certa no contexto certo vale mais que mil palavras”

Desconstruindo #2 Raquel “Esta Pessoa” e o Storytelling ” “Independentemente da forma que damos às histórias, vamos sempre ter que partir de uma reflexão muito pessoal”

Desconstruindo #3 André Amorim, o Desporto e as Pessoas nas Empresas “Quando se sentarem diante de um candidato procurem conhecer a pessoa em vez do profissional.”

Desconstruindo #4 Elsa Fernandes e a Escrita Web “Para comunicar as suas mensagens, as marcas não precisam (nem devem) sacrificar a verdade.” 

Desconstruindo #5 Carlos Guimarães Pinto e Portugal ” A única forma sustentável de aumentar salários é termos mais empresas a competir pelos mesmos trabalhadores”

O Desconstruindo é uma rubrica onde se dá voz a profissionais numa desconstrução de um tema, e por vezes, de forma algo filosófica mas muito prática e real.

“​A única forma sustentável de aumentar salários é termos mais empresas a competir pelos mesmos trabalhadores”​

O Carlos Guimarães Pinto apesar dos seus 36 anos é um homem com uma história de vida imensa. Viveu um mês com a namorada em Dharamshala e deu aulas a refugiados, foi árbitro de futebol, operador de call center, formou-se em Economia, deu aulas na universidade Católica mas também no Vietname. Teve aulas num retiro com Dalai Lama e foi consultor de empresas baseado no Dubai, tendo trabalhado em mais de 20 países. Regressou a Portugal e liderou a Iniciativa Liberal nas últimas legislativas. O partido colocou-se na agenda mediática através das ideias e comunicação irreverente. Depois das eleições abandonou a liderança do partido após sentimento de missão cumprida ao serem construídas bases para o futuro, contudo continua com uma voz muito ativa sobre o panorama nacional.

Desconstruindo Carlos Guimarães Pinto e Portugal

Índia, Filipinas, Nigéria, Emirados Estados Unidos, Vietnam, o que sair de Portugal mostrou-te e ensinou-te?

Viajar, mas acima de tudo viver a realidade de diferentes países traz-nos o benefício de percebermos melhor a natureza humana e a relativizar uma série de coisas. Ao percebermos o que há de igual, e diferente, entre pessoas de diferentes culturas, compreendemos o que pode ser mudado e o que é inerente à natureza humana. Também nos abre horizontes e torna-nos mais criativos e tolerantes.

Como um liberal assiste à falta de liberdade da disciplina de voto, isso não será como ir para uma prova de natação livre e sermos obrigados a nadar bruços?

É preciso não esquecer que são os deputados que se submetem voluntariamente à disciplina de voto. Não há nada nas regras da Assembleia da República que os obrigue. São eles que fazendo os seus cálculos políticos optam por se submeter em troco de serem novamente colocados nas listas ou agradarem ao chefe. As pessoas devem avaliá-los por se submeterem tão facilmente na mesma medida em que avaliam os partidos por submeterem os deputados a disciplina de voto.

A Iniciativa Liberal assumiu-se como um partido de ideias. Não será uma luta injusta os argumentos lógico/racionais debaterem versus a psicologia de massas dos discursos populistas ou demagogos? 

Não é uma luta fácil nem será ganha com facilidade. É muito mais fácil crescer e vencer na política deixando-se levar pelas ideias populistas e demagógicas. A Iniciativa Liberal tem um conjunto de ideias muitas vezes contra-intuitivas e que são complicadas de transmitir. Mas apesar destes defeitos, estas ideias têm duas características que fazem com que valha a pena lutar por elas: são as ideias que Portugal precisa e as ideias que funcionam. Só por isso vale a pena lutar para que as pessoas percebam isso.

Os algoritmos digitais podem não mostrar um contraditório, ou seja existe a facilidade de entrar numa bolha. Há um Portugal da caixa dos comentários nas redes sociais e um Portugal bem mais simpático no offline? 

O offline é, por definição, muito mais simpático porque as pessoas olhos nos olhos têm sempre uma atitude diferente. Já me aconteceu várias vezes dar-me imensamente bem com algumas pessoas e depois de algumas discussões online a relação ficar completamente destruída, discussões que eu tenho a certeza que olhos nos olhos teriam decorrido de uma forma muito mais amigável. Eu hoje evito completamente ter discussões online. Se não conhecer a pessoa, abandono a discussão assim que percebo que se pode tornar pessoal. Se conhecer a pessoa, convido-a para um café para discutir o assunto. Em 15 anos de discussões online já senti demasiadas vezes a tristeza de perder amigos devido a discussões online (alguns tornaram-se mesmo inimigos activos) e quase sempre que encontrei um “inimigo” online na vida real acabamos por esclarecer as nossas divergências. Também noto isso na malta mais jovem, que já cresceu no online, que me parecem terem relações mais conflituosas e discussões mais entricheiradas. Temos que redescobrir o prazer de falar e discutir olhos nos olhos ou pelo menos de telefonar. Espero que o advento das video conferências ajude a que, mesmo online, as interacções se façam assim, de uma forma mais pessoal.

O economista Steen Jakobsen, diz que “Portugal devia ter vergonha de não ser um país de topo mundial”. É verdade?

Portugal teria todas as condições para ser um dos países mais desenvolvidos do Mundo, principalmente agora com o advento do teletrabalho. Se uma pessoa pode trabalhar em qualquer parte do Mundo, certamente muitos escolheriam trabalhar num país seguro, com um tempo fantástico, boa gastronomia e com baixo custo de vida. Infelizmente, tudo o resto contraria estas vantagens: a carga fiscal, a burocracia, a perseguição da máquina fiscal, a lentidão da justiça, etc. É uma oportunidade perdida.

Aveiro, Braga e Porto são os principais motores da economia portuguesa, contudo porque o país continua centrado em Lisboa?

É um processo que se alimenta mutuamente num ciclo vicioso. O poder político concentra-se em Lisboa levando o poder económico atrás. Atrás desses dois segue o poder mediático. Como o poder mediático se concentra em Lisboa, a opinião pública acaba por se focar mais nos problemas de Lisboa o que faz com que o poder político se preocupe mais com esses problemas, concentrando-se ainda mais em Lisboa e atraindo os outros dois poderes. Temos que já não haja muitas possibilidades de inverter este ciclo.

Há empresas fora das IT (salários acima de média), que faturam milhões e apenas pagam o salário mínimo para a maioria dos colaboradores. Mesmo com uma carga fiscal mais baixa isso mudaria? Há exemplos de pessoas que trabalharam uma vida inteira na mesma empresa e receberam o salário mínimo até se reformarem. Não será uma questão de mentalidade invés de económica? 

Isso é o mesmo que dizer que não voarmos é uma questão de mentalidade. Não é mentalidade, é a lei da gravidade. As pessoas em Portugal recebem pouco porque há poucas empresas. Se houvesse mais investimento em Portugal, mais concorrência entre empresas, os salários seriam mais altos. Não só haveria mais concorrência pelos trabalhadores como as empresas menos produtivas, as responsáveis por atirar os salários para baixo, deixariam de existir. A única forma sustentável de aumentar salários é termos mais empresas a competir pelos mesmos trabalhadores, termos mais concorrência para garantir que empresas pouco produtivas desaparecem.

Digo isto muitas vezes a alguns amigos socialistas: se há coisa que os “patrões” detestam é concorrência: se os querem mesmo lixar, abram os mercados e exponham-nos à concorrência.

Como não vivo em Lisboa e arredores, há problemas locais que me são completamente alheios. Pessoalmente acredito que fora da capital e arredores existem oportunidades mais igualitárias independente da raça ou nacionalidade da pessoa. Do pré 25 de Abril ao pós 25 de Abril, e consequente chegada dos PALOP, ainda existe uma certa segregação urbanística e problemas adjacentes daí?

Parece-me claro que não é igual nascer branco ou negro neste país. Da mesma forma que não é indiferente nascer homem ou mulher, rico ou pobre, lisboeta ou beirão. A falta de crescimento económico e concorrência são os principais causadores da falta de mobilidade social e a prevalência de diferenças entre grupos de pessoas. Pensemos num clube de futebol, uma área em que a concorrência é apertada: o que é que acham que aconteceria se o presidente de um clube de futebol contratasse apenas os seus amigos e familiares para jogar? O clube perderia e ele acabaria sem o seu lugar. Isto porque o futebol é, pela natureza do sector, altamente competitivo. E por o ser é que o futebol é uma das poucas formas que pessoas que de outra forma estariam condenadas à pobreza conseguem subir muito na escala social. Mas o futebol só não chega. Precisamos que toda a economia funcione mais assim.

Quais os restaurantes em Espinho que recomendarias ao Gordon Ramsay?

Gosto muito do Cantinho da Ramboia, fora da zona turística, muito bom e barato. O Aquário também é um marco da cidade, mas esse não precisa de publicidade e está um bocadinho fora do meu orçamento.

Se a tua vida fosse um filme, qual seria a sinopse e quem seria o realizador?

“Carlos Guimarães Pinto, o gajo que gostava de experimentar coisas e escolhia os destinos de acordo com o prazer que lhe daria percorrer o caminho para lá chegar.”. Eu gosto muito do Tarantino, mas acho que a minha história de vida não é suficientemente sangrenta para um filme dele. Ficar-me-ia então pelo David Fincher.

“Para comunicar as suas mensagens, as marcas não precisam (nem devem) sacrificar a verdade.” 

O nome Elsa ficou celebrizado com um grito icónico no Sudoeste. Mas a Norte e no em todo o país “digital”, o nome Elsa está conotado à Escrita Web e Comunicação Digital.

Elsa Fernandes começou como jornalista no Público e Media Capital, porém teve um olhar observador para uma carreira no digital. No presente, é formadora e consultora, tendo colaborado com a Salsa, Continente Online, entre outros.

Autora em dois livros , abre o livro na Desconstrução da Escrita para a Web. 

Dan Curran, CEO da PowerPost escreveu na Entrepreneur que “as marcas precisam de jornalistas para que o conteúdo tenha uma voz forte, com base em dados e que conte uma história.” E que ao contrário dos marketeers – “Os jornalistas focam primeiro na audiência e de seguida na marca”. O jornalismo é uma boa influencia para alcançar o público no Marketing Digital? 

Sem dúvida. Na minha opinião, os jornalistas podem tornar-se excelentes redatores de conteúdos. Isto acontece por uma série de razões.

Começando pelo próprio método de trabalho. Um jornalista com alguma experiência sabe fazer boa pesquisa sobre o tema que tem em mãos. Vai também procurar um ângulo original para o seu conteúdo, não se limitando a repetir o que já foi escrito anteriormente. Além disso, foi treinado para ouvir e descobrir boas histórias, elementos fundamentais para a criação de conteúdo de qualidade. 

Depois, a própria forma como um jornalista escreve encaixa na perfeição no que se espera do bom conteúdo. Escrita simples, neutra e que puxa para destaque o que é mais importante, servindo e respeitando quem o lê. Ou seja, o tal foco na audiência que Dan Curran refere.  

Finalmente, e aqui falo especificamente da forma como eu trabalho, assim como o jornalista assume um compromisso com a verdade, procurando ao máximo cingir-se aos factos, defendo que o redator de conteúdos deve fazê-lo também. Acredito que, para comunicar as suas mensagens, as marcas não precisam (nem devem) sacrificar a verdade. 

És uma early-adopter na promoção e no uso profissional das Redes Sociais. Por outro lado, o “Podcast, disse ela” surgiu antes do boom. A criação de conteúdo requer constantes viagens ao futuro?

Gosto muito dessa ideia de viagem ao futuro, especialmente no sentido de alargarmos o nosso campo de visão além do aqui e agora. 

Penso que foi um pouco o que aconteceu nos exemplos que referes. No caso das redes sociais, comecei a explorá-las quando ainda trabalhava na Exponor para perceber como poderia enquadrá-las na estratégia de marketing da instituição. Na altura era uma aposta que outros parques de feiras, nomeadamente em Espanha e na Alemanha, já estavam a fazer. Avançar implicou ir mais à frente buscar inspiração a esses exemplos e fazer as devidas adaptações ao nosso contexto. 

O “Podcast, disse ela” surgiu de facto antes do boom dos podcasts por cá. Era um formato de conteúdo que já consumíamos há algum tempo (eu e a Sónia Costa, co-host no projeto) e que decidimos explorar. No meu caso, muito porque sempre gostei de rádio e vi aqui uma oportunidade de experimentar algo similar. 

podcast,disse ela

Maya Angelou refere que “Tudo no universo tem ritmo, tudo dança”. A escrita para a Web tem um ritmo próprio e incompreendido pelos “ditadores da gramática”? 

Penso que sim. Começar uma frase com um “e” ou com um “mas”, escrever frases só com uma palavra e parágrafos com apenas uma linha são técnicas que não respeitam totalmente a gramática e que talvez não sejam aceitáveis noutros contextos. No entanto, são bons aliados para quem escreve para a web porque tornam o texto mais eficaz e facilitam a leitura. 

Parece-me, contudo, que esta liberdade de que a escrita para a web beneficia não pode justificar tudo. Há princípios que têm mesmo de ser cumpridos, sob pena de prejudicarmos a mensagem. 

Aliás, quando opta por quebrar as regras, o redator deve fazê-lo de forma completamente consciente. Isto coloca-nos uma responsabilidade adicional de estudar e conhecer bem as regras gramaticais para que o desrespeito seja um ato voluntário em benefício da comunicação. 

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Quantidades, medidas, espaços, estruturas, variações e estatísticas. O copywriting tornou-se “mathwriting”? 

É uma perspetiva interessante e compreendo que algumas pessoas possam sentir-se constrangidas por tantas normas, especialmente quando estão a começar.

Ao longo do meu percurso, fui aprendendo a olhar para esses princípios, não como limitações, mas como ferramentas para chegar mais rapidamente e de forma mais significativa ao leitor/utilizador. 

Acho que se aplica o mesmo princípio que vale para as regras gramaticais: estudarmos tão profundamente como funcionam essas quantidades, medidas, espaços, etc. que referes até ao ponto em que não são algo que nos impomos, mas que incorporamos no nosso trabalho sem grande esforço. 

Claro que também gosto de escrever livremente. Faço-o — a par da leitura — para que o meu cérebro nunca se esqueça que há outras escritas além da que exerço profissionalmente. 

Em 1964, Marshall McLuhan afirmou que “O meio influencia a mensagem. Uma mesma mensagem é percebida pelo mesmo indivíduo de forma diferente em diferentes meios.” O conceito permanece atual ou existe uma redefinição com os novos meios? 

Na minha opinião, o meio continua a influenciar a mensagem, mesmo que tenham passado mais de 50 anos sobre a afirmação de Marshall McLuhan e os meios se tenham alargado profundamente.

Esta expansão obriga-nos a ter de compreender como é que o utilizador usa cada meio e a adaptar a nossa comunicação para que as mensagens sejam percebidas. 

É o que acontece com a escrita para a web. Há uma série de diferenças face à escrita para outros canais — desde a forma como lemos à imediatez do meio — que obriga os redatores a ajustarem-se para conseguirem ser eficazes na comunicação. 

Vídeo killed the blogging star? Ou ambos irão coexistir durante os próximos anos? 

É certo que os blogues não são hoje o que eram há dez anos. Assim como o próprio vídeo evoluiu muito e se democratizou. Mas, alargando um pouco o debate, não me parece que a imagem vá substituir a palavra escrita na web. Na minha perspetiva, a tendência é de coexistência e adaptação.

Acho que o Instagram é um bom exemplo desta tendência. Trata-se de uma rede social eminentemente visual, mas onde a palavra encontrou o seu espaço. Vemo-la, por exemplo, ser protagonista em algumas contas (@_odadiana/), mas também cada vez mais presente nas longas legendas de muitos feeds

Em suma, mesmo quando se materializa de formas diferentes daquelas que conhecemos e a que estamos habituados, a escrita acaba por estar sempre presente.

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@_odadiana

Fernando Pessoa, Camões ou Sophia de Mello Breyner: quem contratarias para uma equipa à procura de um copywriter digital? 

Seria uma honra trabalhar com qualquer um dos três. Contudo, talvez fizesse a escolha menos arriscada: Fernando Pessoa.

Pessoa foi redator publicitário durante dez anos, passou por duas agências e escreveu slogans que estão connosco até hoje, como “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” para o lançamento da Coca-Cola no mercado nacional. Será que ele aceitava o desafio de se juntar à equipa?

A tua vida dava um assunto de E-Mail? Se sim, como seria?

Ainda que não seja especialmente original, gosto da frase “Tudo começa com um primeiro passo”, que provavelmente li num livro ou num artigo. Não resume a minha vida toda, mas é algo que tento ter presente nos momentos em que preciso de motivação para agir. 

Isto vale tanto para grandes decisões, como também para quando no dia a dia nos sentamos em frente ao computador para começar a escrever. Tudo começa com um primeiro passo.

“Quando se sentarem diante de um candidato procurem conhecer a pessoa em vez do profissional.”

André Amorim, Nearshore Business Manager da Aubay, conta com passagens nos recursos humanos da Bosch Portugal e EDP. Em paralelo, dá workshops, training development e talks motivacionais em diversas empresas. Foi treinador de Futebol Americano nos Lisboa Navigators, Lisboa Devils (com uma equipa técnica com 10 nacionalidades) e Seleção Nacional. Atualmente está ligado à modalidade como comentador na Eleven Sports.

“Conheci” o André na minha primeira experiência digital onde fui voluntário em social media para a Federação Portuguesa de Futebol Americano. Eu não percebia do desporto, contudo tentei entender para não cometer “barraca”. O André e alguns amigos divulgavam a modalidade na página FA Portugal e sempre ajudou-me no que fosse preciso. Se acharem-no um porreiro….é mesmo verdade!

Desconstruindo #3 André Amorim, o Desporto e as Pessoas nas Empresas

Foste treinador 6 vezes campeão em equipas de futebol americano (Lisboa Navigators e Lisboa Devils). Há um paralelismo entre o desporto e os recursos humanos nas empresas? 

Sem sombra de dúvidas que existe um forte paralelismo entre o Desporto e os Recursos Humanos de uma Empresa, bem como outras áreas. Em particular no Futebol Americano acredito que esse paralelismo e ainda mais forte e evidente.

O Futebol Americano e um desporto de progressão no terreno em que o objetivo máximo passa por marcar touchdown sendo que o objetivo é ter mais pontos marcados do que sofridos. Uma empresa tem também ela a missão de progredir, alcançar objetivos e no final do dia ter mais sucesso do que outras (competidores) num determinado contexto, área ou indústria.

Para isso, quer no Desporto como no Mundo Empresarial, as pessoas – os recursos humanos – são quem coloca em prática as estratégias, os métodos e os processos para que se possa ser bem sucedido. Pessoalmente, acredito que equipas heterogéneas têm um tecto de sucesso mais elevado do que equipas muito homogéneas mas acabam por ser, obviamente, um pouco mais complicadas de gerir por causa de todas as suas particularidades.

Há sempre um parafuso a apertar para melhorar na performance. Contudo como se gere equipas quando uns estão na mó de cima e outros na mó de baixo. E cada pessoa tem os seus sonhos e ambições, e alguns talvez sejam bons jogadores ou profissionais mas talvez não sejam tão boas pessoas? 

Excelente questão mas gostava de a dividir em duas. Primeiro, falando de liderar equipas bem sucedidas e outras menos bem sucedidas. Pessoalmente e apenas a título pessoal, acredito que gerir equipas em termos conturbados é mais fácil do que gerir em termos de facilidade e vitórias.

Sou uma pessoa muito positiva, respiro motivação e consigo olhar para a dinâmica de uma equipa e perceber o que está menos bem e o que podemos melhorar para caminharmos na direção dos nossos objetivos coletivos. Numa dinâmica em que uma equipa ganha de forma constante, acredito que é necessário uma maturidade pessoal, dos líderes em questão, para conseguirem manter os índices de performance da equipa sempre em cima. Acho que neste caso é preciso inclusive que a liderança seja extensível a todos de forma mais abrangente e não seja tão centralizada. Porque? Porque isso pode originar a cisões dentro da equipa.

Já no que toca a uma gestão das próprias pessoas dentro de uma equipa, vamos ser sinceros. Nunca vamos conseguir ter relações próximas, nunca nos vamos identificar com todas as pessoas e nem todos vão fazer parte da nossa “tribo”.

Mas quando estamos inseridos numa equipa é importante perceber o papel que cada um desempenha, compete ao líder de mostrar isso e de fazer essa gestão da forma mais pacífica e orientada aos resultados possível.

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No documentário de Futebol Americano “Hard Knocks” podemos observar que há um constante feedback dos treinadores aos jogadores, sobretudo nos treinos. Qual a importância do feedback em real-time nas empresas? 

Sobre o feedback acho que é uma faca de dois gumes. Eu sou forte apologista de feedback mas se for um feedback orientado, estruturado, com coaching points e onde possamos colocar em prática aquilo que nos estão a transmitir. Acredito que retirei muito isto da minha experiência do desporto e aplico às várias equipas que tive oportunidade de gerir nas várias indústrias onde trabalhei.

Hoje em dia acho que o feedback virou algo banal, todas as empresas, gestores e líderes dizem que praticam feedback de forma constante mas a questão é que tipo de feedback estão a transmitir e qual a praticidade do mesmo? Food for thought.

Os treinadores portugueses que estudam na Faculdade de Motricidade Humana aprendem que “Antes do desportista existe a pessoa”. Como as empresas podem olhar para a pessoa antes do profissional? 

Dica simples: Quando se sentarem diante de um candidato, procurem conhecer a pessoa em vez do profissional. Olhem para além daquilo que está escrito e descrito no CV e tentem compreender as motivações por detrás dessa pessoa para estar ali sentada naquele preciso momento. Como reage perante determinado ambientes, perante determinados obstáculos, perante determinados contextos. E, apenas depois, procuremos o lado técnico e competências necessárias para desempenhar a função que, no final do dia, são também fundamentais.

Fora das empresas de IT e sobretudo na indústria, o salário mínimo é uma norma nas linhas de produção mesmo em empresas que faturam milhões. E é normal, colaboradores dedicarem uma vida à empresa sem um aumento real…

Infelizmente é uma realidade que vivemos mas que espero genuinamente que possamos fugir a isto o mais depressa possível. Acredito que os tempos que temos pela frente, a curto/médio prazo, serão de tremenda dificuldade mas espero que todos juntos possamos de alguma forma caminhar para uma sociedade mais justa, equilibrado e com maior equidade entre as várias indústrias.

Se existe algo que esta pandemia nos ensinou é que precisamos de determinadas áreas – desporto, artes – para encontrarmos equilíbrio na nossa vida e no nosso dia-a-dia.

No desporto e nas empresas há contextos em que o jogador ou profissional não se adaptam ou rendem. Contudo se mudam de contexto(equipa ou empresa) aumentam a performance, apresentam menos falhas e estão mais soltos. Há contextos que tornam a pessoa mais presa? 

Sem sombra de dúvidas que sim. Eu sou advogado da citação “máxima liberdade com a máxima responsabilidade”. Acredito que qualquer pessoa alcança o seu tecto de performance quando tem liberdade para ser quem é e colocar em prática aquilo que sabe. Em determinados momentos são precisos instruções, que existam guidelines, que exista feedback, mas a liberdade é para mim essencial.

E, quando não existe esta abertura em qualquer contexto, origina esse cenário que mencionaste, da pessoa ficar presa e não estar bem naquela cultura, naquele ambiente, com aquela estilo de gestão/liderança.

Uma mudança, que só por si é a única real constante da nossa vida, por vezes é o melhor remédio.

Como vês o futuro da felicidade no trabalho?

Muito honestamente a felicidade é um tema muito abstrato para que eu o possa aqui dissecar ou tentar aqui fazer futurologia.

Mas aquilo que eu gostava MESMO de ver acontecer era de nos ver a todos a encontrar aquilo que nos faz felizes, encontrar um equilíbrio entre todos os campos da nossa vida, ter a liberdade para agir de acordo com as nossas motivações e que percebamos finalmente, e de uma vez por todas, que apenas juntos conseguimos melhor toda a realidade que nos rodeia. Somos todos parte do mesmo organismo e todos temos algo a acrescentar e um papel a desempenhar.

Qual o desportista ou treinador que escolherias para uma palestra motivacional para a equipa onde trabalhas? 

Claro que vou para o Futebol Americano e escolheria ou o Bill Parcells, treinador bastante consagrado da década de 90 ou o jogador Ray Lewis que se retirou do Futebol Americano profissional em 2013.

O Bills Parcells é um dos meus treinadores favoritos e tem um abordagem muito fria, pragmática mas ao mesmo tempo realista a todas as dinâmicas de uma equipa. Uma citação dele que gosto bastante diz “eu gosto de confronto porque limpa o ar”. Isto remete-me muito para a necessidade da tomada de decisões, a não fuga a situações que mais tarde nos podem vir afligir e a uma abertura na comunicação dentro de uma equipa que é essencial.

O Ray Lewis porque é uma lenda motivacional. Acredito que os seus discursos de responsabilidade individual sobre aquilo que cada um pode fazer, e que não existe escala para a palavra esforço, porque é um conceito individual, são algo que estimo muito.

Se a tua vida fosse relatada numa jogada de Futebol Americano como seria?

Em mais de 10 anos no desporto onde já tive oportunidade de fazer várias partilhas nunca me fizeram esta pergunta. Mas a resposta foi automática. A minha vida se fosse relatada numa jogada de Futebol Americano seria a interception que Tom Brady, dos New England Patriots, lançou num jogos dos playoffs em 2006 para Champ Bailey, dos Denver Broncos que seria depois placado por Benjamin Watson numa corrida de mais de 120 metros.

Pessoalmente é uma jogada que tem zero talento mas tem 100% esforço. 🙂

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Desconstruindo #1 João Geada e a Publicidade “Acho a palavra certa no contexto certo vale mais que mil palavras”

Desconstruindo #2 Raquel “Esta Pessoa” e o Storytelling ” “Independentemente da forma que damos às histórias, vamos sempre ter que partir de uma reflexão muito pessoal”

“Independentemente da forma que damos às histórias, vamos sempre ter que partir de uma reflexão muito pessoal”

Num dia ao ver o feed do Linkedin dei por caras com uma publicação diferente do habitual, um diálogo com um rapaz de São Tomé e Príncipe, chamado Bill Gates.

Após tal, de clique em clique dei por mim a “viajar” nas viagens da Raquel(aka Esta Pessoa) e os seus vídeos de storytelling.

Desconstruindo #2 Raquel “Esta Pessoa” e o Storytelling

Slow J e Sara Tavares cantam em “Também Sonhar” que “só quero olhar ao espelho e saber que tentei o meu”. O storytelling é o “meu” que não pára de crescer e um dia fez-te ir ao teu sonho americano? 

Antes do sonho americano, já havia sonhos e pesadelos em português.

Apesar de escrever histórias desde que me lembro, nunca dei muita importância a esse impulso. Acabei uma licenciatura em Direito sem perceber, até ao fim, que o que me levou ali foi um filme que vi. Estudei jornalismo sem perceber o tipo de histórias que queria contar. Ainda assim, acredito que nada terá sido por acaso.

Os anos de trabalho em televisão foram uma formação intensiva e transformadora na maneira de contar histórias. Todos os dias há um desafio diferente e sabes que tens que te superar em contra-relógio nem que seja porque há milhares de pessoas a decidir ao minuto se querem ouvir o que tens para dizer.

Do sonho americano, fica uma aprendizagem muito útil na universidade do Texas, em Austin, onde fiz amigos muito queridos e de onde resultou uma curta-metragem que, de resto, teria hoje um tratamento completamente diferente. Nesse sentido, diria que o storytelling não pára de crescer em nós, de facto. Vamos aprendendo e errando as técnicas até ao dia em que temos, efectivamente, uma história relevante para contar. Com a maturidade e o esforço interior que isso implica.

Mckee diz que “Uma cultura não pode evoluir sem uma narrativa honesta e poderosa.” A narrativa honesta cria impacto porque em sociedade o ser humano tende a mentir? 

Eu tenho o Story, do Mckee, assinado por ele. Além do autógrafo, escreveu-me também um importante reminder para quem quer contar histórias: “Write the truth.”

Acho que é um exercício essencial para qualquer storyteller, para qualquer autor: se conseguirmos encontrar em cada história aquilo que é absolutamente verdade em nós – seja lindo ou feio, agradável ou detestável – aquilo que dizemos torna-se universal. E eu não acho que o ser humano tende a mentir. Acho que o ser humano tende a reagir o melhor que consegue perante as coisas que lhe doem. De resto, é precisamente nesse ponto que nos encontramos todos.

Podemos aprender técnicas de vídeo, técnicas de escrita, técnicas de storytelling, mas independentemente da forma que damos às histórias, vamos sempre ter que partir de uma reflexão muito pessoal. Muito solitária. Muito dorida. Quanto mais honestos conseguirmos ser connosco próprios nessa busca, mais verdade sai cá para fora. É nessa verdade que aprendemos todos uns com os outros.

Em São Pedro de Moel há uma canção verdadeira…

Há muita verdade naquele filme. Numa primeira leitura, porque São Pedro de Moel será sempre o meu local de partida e, espero, o meu lugar de chegada. Depois, porque fiz o vídeo numa altura em que precisei de romper com várias estruturas assentes na minha vida para encontrar uma forma totalmente nova de viver. Eu própria precisava de descobrir uma nova voz. Fiquei ali dois meses a escrever, a filmar, a editar e a revisitar o que era importante para mim para poder sair de novo. No fundo, aquele vídeo é a minha história de amor pela minha própria história. “Esta Pessoa” enquanto todas as outras pessoas.

Ainda hoje não sei se foi da minha vontade ou da energia de São Pedro de Moel. A verdade, é que recebi centenas de mensagens de gratidão e assisti a milhares de partilhas emocionadas de pessoas que tinham encontrado naquelas palavras uma verdade só delas. É tocante ver o que esta partilha consegue fazer por nós.

Esta Pessoa tem Awesome Travel Tales com todas as coisas que nos fazem humanos. Em São Tomé e Príncipe encontraste a tua história entre outras histórias? 

Em São Tomé descobri um novo capítulo da minha história. E aprendi que a vida tem um twist guardado para quando menos esperamos. Melhor storytelling do que viver não há ainda.

Para além das histórias sobre as quais escrevi, encontrei um novo alento para uma história diferente em mim. Com aquelas pessoas, aprendi realmente que apesar das necessidades reais e das dificuldades imensas há uma escolha possível de encarar a coisa em modo “leve-leve”. Como digo no vídeo sobre São Tomé, não há paraísos prometidos nem realidades melhor imaginadas. Há paraísos procurados. Como sempre, é tudo uma questão de perspectiva. Ali, o coração leva a vantagem.

Quando estive em Moçambique comentei a um primo que “Aqui as pessoas ficam genuinamente contentes quando agradeço.” África reensina a simplicidade?

Não conheço o continente africano todo. Posso apenas imaginar que existirão hábitos e formas culturais tão diferentes quanto cada país oferece. De São Tomé, trago sem dúvida a palavra simplicidade na memória. E beleza. E liberdade. Não será verdade que andam habitualmente ligadas?

Nas tuas viagens “vais com tudo” e entras no espírito local. Já houve alguma tradição ou algo que tiveste hesitante antes de experimentar?

Que me lembre não. Tudo o que me parecer interessante experimento. Já estive em aviões indignos desse nome e gostava de ir à América do Sul conhecer as propriedades espirituais da Ayahuasca. Sim, a sério. Com o medo todo que isso me convoca.

Não vou negar que sou extremamente medricas e que há duas coisas que não vão bem comigo: falta de higiene e bichos de pele rastejante.

Já escrevi uma crónica inteira sobre a minha experiência de quase-morte a dormir num eco-resort em Bali. Noites em claro com as minhas amigas osgas. Tudo coisas da cabeça, claro. Mas não é assim que tudo é? Não julguem. Estou no caminho. E o humor é óptimo aliado do storytelling.

Viajar é uma egotrip…

Sem dúvida. Às vezes, há aquela ideia de ir viajar para “limpar a cabeça” ou para se fugir de alguma coisa. Na verdade, não há bagagem maior para se levar para qualquer sítio do que a nossa própria carga. E ainda bem. Ainda que não seja preciso chegar a extremos para se sair da zona de conforto, é bom chegar a um sítio novo e entender tudo à luz de um ângulo diferente. Para mim, viajar será sempre isso: descobrir formas novas de compreender o que é isto de ser pessoa, afinal.

E já agora, contar essa história.

Se organizasses uma viagem em que terias de escolher uma figura pública da TVI, uma personalidade histórica e uma personagem de ficção, qual seria o destino e o porquê das escolhas? 

Da TVI – até porque trabalhei lá muito tempo, na direcção criativa – levava imensas figuras não necessariamente públicas. Pegava nesses amigos todos e talvez fôssemos viver como figuras extravagantemente públicas durante uma semana na Polinésia Francesa a existir só. Acho que aceitavam todos o convite.

Entretanto, pegava no Vasco da Gama por um braço e pedia-lhe que descobríssemos o caminho para um lugar completamente novo. Fictício, até. Algum sítio onde pudéssemos cartografar respostas completamente originais para a vida.

Porque estou completamente apaixonada pelo novo filme do Joker, levava o vilão comigo. (Ali está um belo exemplo de storytelling, com a sensibilidade e humanidade que as histórias pedem).

Talvez precisássemos de uma volta ao mundo completa para que ele e eu, à vez, pudéssemos perceber que há sempre um lugar novo – com pessoas como nós – onde a Viagem pode ser vivida de uma forma mais feliz.

Sobre Raquel Oliveira Martins aka Esta Pessoa

Storyteller e editora de vídeos, no seu projeto Esta Pessoa dá a conhecer outros destinos mas também outras vidas e culturas numa auto-descoberta sobre isto de ser pessoa.

Trabalhou vários anos na criação de promos da TVI, atualmente trabalha por conta própria tendo criado vídeos para diversas empresas e municípios.

Facebook Esta Pessoa / Youtube / Instagram

 

“Acho que a palavra certa no contexto certo vale por mil imagens.” – Desconstruindo #1 João Geada e a Publicidade

Desde da primeira vez que levei com uma publicação do João Geada que algo intrigou-me. Como nunca trabalhei numa agência de Lisboa, eu não sabia quem era aquele homem mas achei que tinha de escuta-lo e partir à descoberta no Youtube. Daí a ser o primeiro convidado do “Desconstruindo” foi a escolha mais natural porque o feeling estava certo.

Desconstruindo #1 | João Geada e a Publicidade

Designer, Criativo Publicitário, Copywriter, Estratega. Ser criativo é mesmo uma maldição? Como tem sido o teu percurso “amaldiçoado”? 

Ser criativo é uma coisa natural para todos. Mantermo-nos criativos na sociedade actual é que é uma maldição, porque vem de uma sensibilidade e curiosidade que nos torna mais atentos às imperfeições, e como há muitas, tendemos normalmente para ser pessoas revoltadas.

O meu percurso tem sido exactamente isso (por exemplo, o acordo ortográfico revolta-me, razão porque escrevo exactamente e não exatamente), uma vida com mais ou menos revolta contra os defeitos da humanidade. Claro que com a idade e com mais de 30 anos a trabalhar como criativo publicitário, estou consideravelmente mais tolerante e paciente.

Porque um publicitário irrita-se mais que um “pizzaiolo” que também está continuamente a mudar as suas receitas com pedidos extras ou substituição de elementos?

Acredito que toda a gente que aplica fortemente criatividade no seu trabalho, põe uma paixão pouco comum no que faz, e ninguém gosta de ver o produto da sua paixão a ser transformado para pior, o que acontece quando essa transformação passa por dar uns passos para trás no processo que levou ao resultado que a nossa experiência e intuição dizem ser o melhor.

Isto para dizer que acredito que os “pizzaiolos” também se devem irritar, ainda que o resultado do seu trabalho seja objectivo, provocar uma experiência sensorial em clientes, que saberão seguramente se gostam mais de bacon com ananás do que de anchovas com caracol.

Nós trabalhamos com um produto subjectivo e que não foi encomendado por quem o vai ‘consumir’, que também deve provocar experiências sensoriais e mexer com a percepção que têm de algo. Como tudo isto é dificilmente quantificável, fica só por conta da tal experiência e intuição do criador.

Quando mudam o resultado do nosso processo, muitas vezes com base numa experiência pessoal que não é a de um criador de comunicação, estão a colocar em causa o nosso profissionalismo, o que é obviamente irritante.

As marcas portuguesas entenderam o potencial das redes sociais e do digital?

É difícil generalizar. Umas sim, como o Activobank, outras nem por isso.

A meu ver, as universidades portuguesas que produzem profissionais de marketing e comunicação são fracas, e os profissionais que de lá saem, não só vêm com um desfasamento cultural de uma década, como viram a sua criatividade a ser lentamente destruída no processo formativo.

Isto faz com que as marcas portuguesas ainda tenham uma certa arrogância, provocada pela ignorância, que as impede de se comportarem de uma forma mais transparente, natural e humana. Sem isto, é difícil tirar o melhor partido do digital e das redes sociais.

Um bom exemplo é o comportamento digital de algumas marcas internacionais na web, lá fora e cá dentro, como é o caso do Burger King. Vê-se bem a tal década de desfasamento.

Com o digital há uma ruptura muito grande com o passado criado por Edward Bernays, David Ogilvy e outros? 

Com o digital há uma ruptura enorme na forma de distribuir os conteúdos, nas possibilidades de interacção com os públicos, e no acesso a todo o tipo de informação. Na forma de criar os conteúdos, não há ruptura absolutamente nenhuma, se a coisa for bem feita e não resvalar para a automação de processos ou para o exagero de tempo de antena das marcas, que tiram qualquer humanidade à comunicação.

A grande ruptura está na forma como as marcas devem criar as suas estratégias e aqui precisamos de muito mais maturidade.

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Daí a criação do Faceboot em 2016 para a Timberland?

O Faceboot foi uma proposta aprovada pela Timberland, que acabou por não avançar como previsto, porque os representantes da marca não entenderam a sua dimensão.

Mas sim, a ideia passava por dar relevância ao posicionamento de uma marca conhecida por promover a aventura e o contacto com a natureza, criando uma ‘rede social’ sem dispositivos electrónicos pelo meio, ou como dizia o claim da campanha, ‘Less likes, more hikes’.

Isto não significa que a marca se afastasse das redes sociais no formato normal, era apenas uma forma diferente e pertinente, para uma marca como a Timberland contar a sua história

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No mesmo ano, o teu cartaz (imagem acima) foi um dos vencedores do concurso da ONU de alerta à violência a mulheres. As palavras não são levadas pelo vento como diz o provérbio. Qual o seu verdadeiro poder?

Tenho um fascínio enorme pelas palavras, ditas ou escritas e já que falas em provérbios, ao contrário de outro, acho que é a palavra certa no contexto certo que vale por mil imagens.

Um simples ‘Yes we can’ contém muito mais imagens que todas as fotografias do Obama juntas. Este poder minimal da palavra é de facto impressionante, porque na realidade a palavra faz-nos criar imagens.

Dou um exemplo. Quando vês o filme sobre uma história que leste primeiro o que acontece? Não gostas, porque as imagens que o realizador escolheu são dele e na maioria das vezes, não têm nada a ver com as que tu criaste quando leste o livro.

Embora a imagem criada por humanos seja bastante mais antiga que a palavra, continuo a reconhecer mais poder e universalidade na escrita, mas confesso que acredito ainda mais no poder da boa combinação das palavras certas com as imagens certas.

A humanidade caminha para um Lazy Movement ou The Creative Humanity?

A humanidade precisa das duas. Precisa sem dúvida nenhuma de recuperar a criatividade e o tempo pessoal, que nos foram retirados pelas escolas e pela sociedade, ambas ainda com muitas influências do industrialismo.

Em relação à criatividade, é ela que nos permite evoluir enquanto espécie e é a falta dela que está a retardar essa evolução. Porque se por um lado inovamos muito, essa inovação é maioritariamente má, porque não só dá cabo do nosso Planeta como continua a não ser integradora e acaba por contribuir sempre para os desequilíbrios sociais.

O tempo pessoal é outra coisa óbvia. Vivemos em média 70 ou 80 anos e desses, 60 anos são a trabalhar e a estudar 8 ou mais horas por dia, com pressa para acabar a universidade, o projecto, o trajecto para casa, etc. Vivemos a maioria da nossa vida preocupados em acabar qualquer coisa, em ‘despachar’ tudo, e para mim isto deixou de fazer qualquer sentido.

Como digo numa das frases criadas para o Lazy Movement, ‘Começa alguma coisa e nunca a acabes’. O que quero dizer com isto é que, se pensarmos bem, vale muito mais um projecto, pessoal ou profissional, ao qual dedicamos muita paixão e carinho, e que por isso deve levar todo o tempo possível, do que 100 projectos que despachamos apenas para começar outro, mal acabados e que não nos deram prazer nenhum a realizar.

Eu sei que precisamos de dinheiro e que para ter mais é preciso despachar serviço, mas de quanto dinheiro precisamos? Será que não o conseguimos fazer com mais tempo para tudo e com muito mais qualidade de vida? É este tipo de questões que pretendo levantar com o Lazy Movement.

Aliás, recentemente a Microsoft Japão, contrariamente à semana de trabalho também herdada dos tempos da revolução industrial, reduziu-a para 4 dias e a produtividade aumentou em 40%. Isto dá muito que pensar.

Como serão as agências de publicidade no futuro?  

Há muitos anos que penso sobre isso e acredito que vão ser absorvidas pelas marcas. Acho que as empresas terão um director criativo e uma equipa que conhecerá a marca como ninguém e será responsável pela criação da maioria dos conteúdos. Os eventuais perigos da falta de visão externa, serão atenuados por freelancers, ou ‘artistas convidados’ que acrescentarão frescura nos projectos mais relevantes.

Também creio que o formato do qual já vemos alguns indícios, que é a junção de gente com talentos complementares, que formam colectivos, embora hoje em dia tendam ainda a virar agências, como é o caso da Solid Dogma ou d’O Escritório, no futuro acho que será semelhante aos artistas de música, que se juntam e separam consoante o projecto.

Ainda haverá “Efeito Rashomon” entre a percepção de quem contrata e a dos criativos?  

Com as agências dentro das marcas o efeito será seguramente atenuado. E no dia em que a tendência para marketeiros criativos, como Steve Jobs ou Fernando Machado, Director de Marketing da Burger King internacional, se afirmar definitivamente, acredito que o lado mau do efeito, irá lentamente desaparecer.

A tua vida dava um filme? Se sim, qual a sinopse e quem escolherias como realizador? 

Dava. Um filme ou uma série com muitas temporadas.

A sinopse em versão tweet seria algo como ‘Um criativo, com doença bipolar, 8 filhos e uma vida de excessos, encontra finalmente a tranquilidade, o amor e a vida calma’.

O realizador seria uma dupla entre o David Fincher e o Woody Allen porque gostaria que fosse uma comédia negra, com um final feliz.

Sobre João Geada

Foi diretor criativo executivo de agências como a Proximity BBDO Portugal, a Wunderman España, JWT Lisboa e dos projectos pessoais Maxdesign e Lalaland. Consultor para campanhas em todo o mundo, foi também jurado em vários festivais nacionais e internacionais e conquistou quase duas centenas de prémios em praticamente todos os festivais de renome e em todo o tipo de disciplinas, como Design, Filme, Imprensa, Marketing Relacional e Digital.

Em 2017, fundou o The Creative Humanity, um projecto que pretende ajudar toda a gente a usar as suas capacidades criativas para fazer das suas vidas e empreendimentos, coisas mais Humanas e sustentáveis.

https://joaogeada.pt/