“Independentemente da forma que damos às histórias, vamos sempre ter que partir de uma reflexão muito pessoal”

Num dia ao ver o feed do Linkedin dei por caras com uma publicação diferente do habitual, um diálogo com um rapaz de São Tomé e Príncipe, chamado Bill Gates.

Após tal, de clique em clique dei por mim a “viajar” nas viagens da Raquel(aka Esta Pessoa) e os seus vídeos de storytelling.

Desconstruindo #2 Raquel “Esta Pessoa” e o Storytelling

Slow J e Sara Tavares cantam em “Também Sonhar” que “só quero olhar ao espelho e saber que tentei o meu”. O storytelling é o “meu” que não pára de crescer e um dia fez-te ir ao teu sonho americano? 

Antes do sonho americano, já havia sonhos e pesadelos em português.

Apesar de escrever histórias desde que me lembro, nunca dei muita importância a esse impulso. Acabei uma licenciatura em Direito sem perceber, até ao fim, que o que me levou ali foi um filme que vi. Estudei jornalismo sem perceber o tipo de histórias que queria contar. Ainda assim, acredito que nada terá sido por acaso.

Os anos de trabalho em televisão foram uma formação intensiva e transformadora na maneira de contar histórias. Todos os dias há um desafio diferente e sabes que tens que te superar em contra-relógio nem que seja porque há milhares de pessoas a decidir ao minuto se querem ouvir o que tens para dizer.

Do sonho americano, fica uma aprendizagem muito útil na universidade do Texas, em Austin, onde fiz amigos muito queridos e de onde resultou uma curta-metragem que, de resto, teria hoje um tratamento completamente diferente. Nesse sentido, diria que o storytelling não pára de crescer em nós, de facto. Vamos aprendendo e errando as técnicas até ao dia em que temos, efectivamente, uma história relevante para contar. Com a maturidade e o esforço interior que isso implica.

Mckee diz que “Uma cultura não pode evoluir sem uma narrativa honesta e poderosa.” A narrativa honesta cria impacto porque em sociedade o ser humano tende a mentir? 

Eu tenho o Story, do Mckee, assinado por ele. Além do autógrafo, escreveu-me também um importante reminder para quem quer contar histórias: “Write the truth.”

Acho que é um exercício essencial para qualquer storyteller, para qualquer autor: se conseguirmos encontrar em cada história aquilo que é absolutamente verdade em nós – seja lindo ou feio, agradável ou detestável – aquilo que dizemos torna-se universal. E eu não acho que o ser humano tende a mentir. Acho que o ser humano tende a reagir o melhor que consegue perante as coisas que lhe doem. De resto, é precisamente nesse ponto que nos encontramos todos.

Podemos aprender técnicas de vídeo, técnicas de escrita, técnicas de storytelling, mas independentemente da forma que damos às histórias, vamos sempre ter que partir de uma reflexão muito pessoal. Muito solitária. Muito dorida. Quanto mais honestos conseguirmos ser connosco próprios nessa busca, mais verdade sai cá para fora. É nessa verdade que aprendemos todos uns com os outros.

Em São Pedro de Moel há uma canção verdadeira…

Há muita verdade naquele filme. Numa primeira leitura, porque São Pedro de Moel será sempre o meu local de partida e, espero, o meu lugar de chegada. Depois, porque fiz o vídeo numa altura em que precisei de romper com várias estruturas assentes na minha vida para encontrar uma forma totalmente nova de viver. Eu própria precisava de descobrir uma nova voz. Fiquei ali dois meses a escrever, a filmar, a editar e a revisitar o que era importante para mim para poder sair de novo. No fundo, aquele vídeo é a minha história de amor pela minha própria história. “Esta Pessoa” enquanto todas as outras pessoas.

Ainda hoje não sei se foi da minha vontade ou da energia de São Pedro de Moel. A verdade, é que recebi centenas de mensagens de gratidão e assisti a milhares de partilhas emocionadas de pessoas que tinham encontrado naquelas palavras uma verdade só delas. É tocante ver o que esta partilha consegue fazer por nós.

Esta Pessoa tem Awesome Travel Tales com todas as coisas que nos fazem humanos. Em São Tomé e Príncipe encontraste a tua história entre outras histórias? 

Em São Tomé descobri um novo capítulo da minha história. E aprendi que a vida tem um twist guardado para quando menos esperamos. Melhor storytelling do que viver não há ainda.

Para além das histórias sobre as quais escrevi, encontrei um novo alento para uma história diferente em mim. Com aquelas pessoas, aprendi realmente que apesar das necessidades reais e das dificuldades imensas há uma escolha possível de encarar a coisa em modo “leve-leve”. Como digo no vídeo sobre São Tomé, não há paraísos prometidos nem realidades melhor imaginadas. Há paraísos procurados. Como sempre, é tudo uma questão de perspectiva. Ali, o coração leva a vantagem.

Quando estive em Moçambique comentei a um primo que “Aqui as pessoas ficam genuinamente contentes quando agradeço.” África reensina a simplicidade?

Não conheço o continente africano todo. Posso apenas imaginar que existirão hábitos e formas culturais tão diferentes quanto cada país oferece. De São Tomé, trago sem dúvida a palavra simplicidade na memória. E beleza. E liberdade. Não será verdade que andam habitualmente ligadas?

Nas tuas viagens “vais com tudo” e entras no espírito local. Já houve alguma tradição ou algo que tiveste hesitante antes de experimentar?

Que me lembre não. Tudo o que me parecer interessante experimento. Já estive em aviões indignos desse nome e gostava de ir à América do Sul conhecer as propriedades espirituais da Ayahuasca. Sim, a sério. Com o medo todo que isso me convoca.

Não vou negar que sou extremamente medricas e que há duas coisas que não vão bem comigo: falta de higiene e bichos de pele rastejante.

Já escrevi uma crónica inteira sobre a minha experiência de quase-morte a dormir num eco-resort em Bali. Noites em claro com as minhas amigas osgas. Tudo coisas da cabeça, claro. Mas não é assim que tudo é? Não julguem. Estou no caminho. E o humor é óptimo aliado do storytelling.

Viajar é uma egotrip…

Sem dúvida. Às vezes, há aquela ideia de ir viajar para “limpar a cabeça” ou para se fugir de alguma coisa. Na verdade, não há bagagem maior para se levar para qualquer sítio do que a nossa própria carga. E ainda bem. Ainda que não seja preciso chegar a extremos para se sair da zona de conforto, é bom chegar a um sítio novo e entender tudo à luz de um ângulo diferente. Para mim, viajar será sempre isso: descobrir formas novas de compreender o que é isto de ser pessoa, afinal.

E já agora, contar essa história.

Se organizasses uma viagem em que terias de escolher uma figura pública da TVI, uma personalidade histórica e uma personagem de ficção, qual seria o destino e o porquê das escolhas? 

Da TVI – até porque trabalhei lá muito tempo, na direcção criativa – levava imensas figuras não necessariamente públicas. Pegava nesses amigos todos e talvez fôssemos viver como figuras extravagantemente públicas durante uma semana na Polinésia Francesa a existir só. Acho que aceitavam todos o convite.

Entretanto, pegava no Vasco da Gama por um braço e pedia-lhe que descobríssemos o caminho para um lugar completamente novo. Fictício, até. Algum sítio onde pudéssemos cartografar respostas completamente originais para a vida.

Porque estou completamente apaixonada pelo novo filme do Joker, levava o vilão comigo. (Ali está um belo exemplo de storytelling, com a sensibilidade e humanidade que as histórias pedem).

Talvez precisássemos de uma volta ao mundo completa para que ele e eu, à vez, pudéssemos perceber que há sempre um lugar novo – com pessoas como nós – onde a Viagem pode ser vivida de uma forma mais feliz.

Sobre Raquel Oliveira Martins aka Esta Pessoa

Storyteller e editora de vídeos, no seu projeto Esta Pessoa dá a conhecer outros destinos mas também outras vidas e culturas numa auto-descoberta sobre isto de ser pessoa.

Trabalhou vários anos na criação de promos da TVI, atualmente trabalha por conta própria tendo criado vídeos para diversas empresas e municípios.

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A arte de contar histórias

Que faz uma andorinha, um símbolo de esperança numa casa degredada?

storytelling portugal

O suspense foi criado, será que um novo álbum irá sair? Mas depressa apercebeu-se, que um novo videoclip estava a prestes a ser lançado.

storytelling portugal

Depois do dia, fomos informado da hora.

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6 dias passados, o vídeo apresenta 992 likes e 292 partilhas na página do rapper Deau. Além de contar com mais de 40 mil views no Youtube, número fantásticos para um músico independente.

Mas o que leva esta andorinha a ser especial? Oiçam, que mais abaixo, abordarei sobre a canção.

A música conta uma história, em termos líricos e visuais. Uma andorinha é personificada, e inicialmente pensamos a música como uma canção de amor/relação conturbada. Mas as palavras vivem com diferentes significados, e quanto mais avançamos pela música, apercebemos duma andorinha “abutre”.

A andorinha não é uma mulher, mas sim a droga.

“Consumimos um ao outro pelo máximo tempo, a eternidade da primavera dura cada vez menos”.

Em toda a música existe analogias e metáforas entre significados e palavras do campo lexical que relacionam com a dependência de drogas. Contudo, para quem não conseguir interpretar este significado, o ouvinte pode interpretar a música como um amor conturbado, ou algo que se relacione com o seu mundo.

Esta Andorinha é “bela e traquina”, bela porque como as boas histórias, arranja formas alternativas de passar a mensagem, para as pessoas ficarem envolvidas nas palavras. E traquina, porque esconde um outro significado. As boas histórias são assim, algo para descobrirmos com os ritmos certos, que envolvem-nos do início até ao final.